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A falência moral do jornalismo brasileiro

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05.02.2026

O jornalismo brasileiro, que durante décadas cultivou a imagem de fiscal do poder e guardião da esfera pública, encontra-se hoje em avançado estado de decomposição moral e intelectual. A crise que o atravessa já não é apenas de credibilidade, mas de identidade. É evidente que ainda subsistem profissionais e veículos de comunicação que resistem a essa lógica, mas, no conjunto, grandes conglomerados de comunicação abandonaram a função clássica da imprensa livre e converteram-se em aparelhos ideológicos de militância política, operando não como observadores críticos da vida pública, mas como atores engajados na disputa direta pelo poder.

Essa transformação tornou-se particularmente evidente nas últimas semanas. O espetáculo oferecido por essas redações diante do colapso aberto da Justiça brasileira configura um dos episódios mais grotescos da história recente da chamada “imprensa profissional”. Jornalistas e comentaristas, autoproclamados defensores da democracia, reagiram com indignação cuidadosamente seletiva ao expor fissuras de um sistema judicial que eles próprios ajudaram a legitimar. Agora, fingem surpresa e passam a denunciá-lo, como se não fossem também responsáveis pela degradação institucional que ajudaram a construir.

Essa degradação não ocorreu por acaso nem surgiu repentinamente. Ela foi cuidadosamente construída ao longo de anos, pavimentada por decisões políticas e judiciais justificadas sob o rótulo fraudulento da “defesa da democracia”. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações da Operação Lava Jato contra Luiz Inácio Lula da Silva, sob os argumentos formais de incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba e suspeição do juiz Sergio Moro. O efeito concreto dessas decisões foi a anulação das condenações dos principais protagonistas do maior escândalo de corrupção da história do país.

O esquema do Petrolão desviou bilhões de reais da Petrobras, envolvendo empreiteiras como Odebrecht e OAS e uma vasta rede de partidos, operadores financeiros e agentes públicos. Nada disso foi negado nos autos. Nada disso foi refutado no mérito. Ainda assim, a elite jornalística brasileira celebrou a anulação das condenações como se fosse um triunfo civilizacional, ignorando deliberadamente o impacto devastador dessas decisões sobre a confiança nas instituições e sobre o combate sistêmico à corrupção.

A imprensa deixou de ser fiscal do arbítrio para se tornar sua assessoria de imprensa

Não se tratou de neutralidade jornalística nem de análise técnica. Militantes de redação apoiaram ativamente a anulação da Lava Jato e a anulação das condenações dos envolvidos, ao mesmo tempo em que se engajaram na reabilitação política e no retorno ao........

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