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Não, os alemães não são nazis

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09.09.2026

Há países que conhecemos através dos jornais e há países que nos entram pela vida, pelas conversas à mesa, pela família, pelo trabalho, pela política e por essa experiência difícil de explicar que consiste em conhecer os códigos de uma sociedade sem precisar que alguém os traduza.

A Alemanha é, para mim, um desses países. Talvez por isso tenha acompanhado com alguma perplexidade — e, em certos momentos, terror — muitas das análises produzidas nos últimos dias sobre as eleições na Saxónia-Anhalt. Não porque o resultado não seja extraordinário ou preocupante. É ambas as coisas. Mas porque demasiadas vezes se tentou explicar uma sociedade e uma política extraordinariamente complexa através da palavra mais simples e mais pesada que a História alemã nos deixou: nazismo.

Comentar política alemã exige mais do que conhecer a composição do Bundestag ou olhar para um mapa eleitoral pintado de azul. A Alemanha é um Estado federal de 16 Länder, atravessado por diferenças económicas, culturais, históricas e políticas que continuam a ser profundas. Há uma Alemanha oriental e outra ocidental que se reunificaram juridicamente em 1990, mas que ainda não votam, não recordam e nem sempre olham para o Estado da mesma maneira. Há memórias familiares diferentes, tradições partidárias diferentes e até formas diferentes de entender a autoridade, a liberdade e a relação com as instituições. Ignorar tudo isto e transformar uma eleição regional numa espécie de teste nacional à memória do Terceiro Reich não é apenas uma simplificação. É substituir análise séria por soundbites.

Há uma forma particularmente cómoda de olhar para o que aconteceu no domingo na Saxónia-Anhalt: concluir que os alemães se esqueceram da História. A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 43,8% dos votos, mais do dobro da União Democrata-Cristã (CDU), e ficou a três deputados da maioria absoluta. Portanto, dizem-nos, os fantasmas regressaram, a Alemanha virou de novo à extrema-direita e, algures entre Magdeburgo e Berlim, começou a repetir-se 1933. É uma explicação dramaticamente eficaz. Tem apenas um problema: explica muito pouco, é intelectualmente desonesta, e sem relação com a realidade.

Não, os alemães não se tornaram nazis.

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Isto não significa ignorar o que existe de profundamente preocupante na AfD. A estrutura do partido na Saxónia-Anhalt foi classificada pelos serviços de informações internos do Land como extremista de direita. Há dirigentes, propostas e discursos que ultrapassam largamente as fronteiras do conservadorismo democrático. A ideia de “remigração”, certas posições sobre identidade nacional, imigração, educação ou a relação com a Rússia merecem escrutínio sério e muita preocupação. Mas uma coisa é analisar a AfD. Outra, bastante diferente, é concluir que 43,8% dos eleitores da Saxónia-Anhalt acordaram numa manhã de setembro convertidos ao nacional-socialismo.

Essa interpretação é intelectualmente fácil, porque nos dispensa de fazer a pergunta verdadeiramente incómoda: por que razão votaram assim?

E há ainda um problema histórico nesta comparação. A História não se repete apenas porque encontramos no presente imagens que nos recordam o passado. A Alemanha que........

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