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A Espanha depois do apocalipse

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08.10.2026

Há uma tendência na política espanhola para transformar cada crise numa batalha final. Habitação, imigração, fronteiras, Catalunha, corrupção, tribunais, parlamento. Quase tudo parece anunciar uma rutura. A linguagem sobe de tom com uma rapidez própria das campanhas eleitorais. Fala-se de autoritarismo, de ameaça existencial, de extrema-direita, de democracia em perigo. Depois chega uma eleição. Os partidos contam votos, fazem contas aos lugares, procuram parceiros e voltam ao trabalho no dia seguinte, ou pelo menos tentam.

A habitação é um dos problemas reais desta campanha, precisamente porque não cabe facilmente nas palavras de ordem. Os preços subiram muito, sobretudo nas grandes cidades, e para uma parte crescente da população arrendar ou comprar casa tornou-se praticamente impossível. A imigração aumenta a procura em zonas onde a população cresce depressa, mas não explica tudo. Turismo, segundas residências, investimento imobiliário, juros, salários, escassez de construção e processos urbanísticos que demoram anos também pesam. No fim, há uma questão pouco emocionante que nenhuma campanha consegue evitar durante muito tempo: construir casas suficientes nos lugares onde as pessoas querem viver.

A história de Maricarmen, a idosa cuja situação acabou por dar nome a um decreto sobre despejos, mostra bem como estes problemas entram na política. Há uma pessoa concreta, uma situação que desperta empatia e uma regra que parece simples. Depois chegam os contratos, os tribunais, os senhorios, as rendas em atraso e os critérios legais para determinar quem está em situação de vulnerabilidade. A política fica melhor com a primeira versão. A administração pública acaba sempre a trabalhar com a segunda.

A tentativa do Governo de recuperar os decretos sobre habitação depois da dissolução das Cortes introduz outra questão. A Diputación Permanente conserva poderes relevantes durante este período e a Constituição não lhe retira tudo aquilo que cabe ao Pleno. Pode um decreto acabado de ser rejeitado pelos deputados regressar por outra porta porque a dissolução alterou a aritmética parlamentar? Há juristas que entendem que sim. Outros veem nessa possibilidade um uso formal das regras contra o sentido democrático da decisão anterior. Parece uma discussão jurídica. Em Espanha, acaba rapidamente por ser uma discussão digna de uma guerra civil.

As manifestações contra o preço das casas são........

© Expresso