Um modelo de SNS para um país que já não existe
Portugal continua a discutir a saúde como se estivéssemos nos anos 90. O debate gira à volta de urgências encerradas, falta de médicos, tempos de espera e sucessivos reforços orçamentais. São problemas reais, mas insuficientes para explicar a atual crise vivida pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Os documentos recentemente colocados em consulta pública pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS) obrigam-nos, finalmente, a olhar para os problemas estruturais do SNS, em vez de nos limitarmos a reagir aos seus sintomas. A conclusão que deles emerge é desconfortável: o sistema de saúde português continua excessivamente desenhado para responder às doenças do século XX, quando os desafios do século XXI são outros.
Os números mostram bem essa mudança. Em 1970, a esperança média de vida em Portugal rondava os 67 anos; hoje ultrapassa os 81. Além disso, mais de metade da população adulta vive com pelo menos uma doença crónica e Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa. Apesar desta profunda transformação demográfica e epidemiológica, o SNS continua assente num modelo concebido para responder à doença aguda e a episódios clínicos isolados, quando hoje predominam as doenças crónincas, a multimorbilidade, a dependência funcional, a solidão, a fragilidade social e a crescente pressão sobre os cuidadores informais.
O problema é que a nossa sociedade mudou muito mais depressa do que o sistema de saúde implementado.
O próprio CNS reconhece agora a necessidade de “deslocar o centro sistémico........
