Marca Lusofonia
Houve duas coisas que quase coincidiram no tempo: em Setembro de 2024, Mia Couto recebeu o prémio Feira Internacional do Livro de Guadalajara; em Fevereiro do ano seguinte, fui à livraria McNally Jackson em Nova Iorque.
Fiquei contente com o prémio dado ao autor moçambicano. Não escondo o meu clubismo na literatura, e o meu clube é a língua portuguesa. Isto não passa por nacionalismo nem por manifestação identitária bacoca: passa pelo facto de ser leitora e escritora, e por aprender em primeiro grau com quem faz na minha língua. Ainda era criança e já lia Mia Couto – era um dos meus a direito, aprendia com ele. E o mesmo com outros, de Vergílio Ferreira a Almeida Garrett, de Saramago a Jorge Amado, de Júlio Dinis a Érico Veríssimo, de Nelson Rodrigues a Pepetela. Quando se é criança e já se sabe que a vida passará pela escrita, os adultos que já têm romances feitos são um misto de guardiões da prosa, inovadores da técnica, líderes espirituais e professores. Mia Couto, entre os seus pares da prateleira, era tudo isso para mim. Lembro-me até do meu espanto com os neologismos – miacoutices, portanto. Cheguei lá pela primeira vez através da literatura moçambicana, não das aulas de Português. E adorei que fosse possível inventar palavras, eu, que tanto adorava dicionários, que eram para mim quase fonte de reverência: não apenas os lia à procura de verbetes que me agradassem, como decorava alguns significados como se fossem uma lei. Teria uns 11 anos e explicava assim a filosofia: “ciência geral dos princípios e das causas”. Ou a hipocrisia: “demonstração de bondade que não corresponde ao que alguém pensa ou sente”. Ou cinismo: “filosofia dos cínicos, impudência”. E, como estas, muitas outras palavras que lia nos livros mas não conseguia entender senão através do dicionário.
Ora, aí com uns 11 anos, também quis miacoutar. E, num teste, metendo num........
