Opinião | O que acontece no cérebro quando perdemos a consciência?
O cérebro nunca para de mudar
O neurocientista Fernando Gomes fala da capacidade que esse órgão tem de passar por modificações da infância à velhice. Crédito: Dr. Fernando Gomes | TV Estadão
Quem já tomou uma anestesia geral sabe o que é perder a consciência instantaneamente. O anestesista coloca a agulha na veia e, conversando com você, injeta o anestésico. Você pode resistir e tentar continuar a conversa ou se entregar, mas não importa, sua consciência se extingue imediatamente assim que o anestésico chega ao cérebro. Ela volta minutos ou horas depois. E esse tempo foi perdido para sempre, você não se lembra do que aconteceu, do tempo que ficou privado da consciência, é como se esse tempo não tivesse existido. A única evidência de que algo ocorreu talvez seja um curativo sobre os pontos da cirurgia ou o médico te comunicando que tudo foi bem. Imagino que a morte seja uma anestesia geral sem a volta da consciência. Nas últimas décadas o mais provável é que a droga que foi primeiro injetada em você foi o propofol. Aquela que matou o Michael Jackson. É um anestésico poderoso e rápido que pode ser letal.
Existem várias situações em que perdemos e recuperamos a consciência, a mais frequente ocorre todos os dias quando adormecemos. Para os cientistas que tentam entender o que é a consciência, investigar o que acontece no cérebro quando ela desaparece e depois reaparece é uma das maneiras de descobrir que partes e atividades cerebrais são responsáveis pela existência dessa coisa misteriosa que chamamos de consciência. E é por esse motivo que se estuda, faz décadas, o que acontece quando caímos no sono ou quando somos anestesiados.
Estudar a perda da consciência na anestesia tem a vantagem de o processo ser mais controlado e reprodutível. Mas tem a desvantagem de ser induzido por uma droga que afeta além da consciência outros fenômenos que ocorrem no cérebro. Já o sono tem a desvantagem de ser um processo onde a consciência desaparece lentamente e de maneira diferente em cada pessoa, em cada noite. Mas na falta de modelos melhores, quem não tem cão caça com gato.
Para estudar o que acontece no cérebro durante a perda de consciência induzida por anestesia geral, 31 pacientes tiveram sua atividade cerebral monitorada usando uma versão mais sofisticada de um aparelho de eletroencefalograma. Esse aparelho possui 128 eletrodos que são colocados diretamente no coro cabeludo. Seria melhor se os eletrodos estivessem diretamente no cérebro, mas isso é um procedimento invasivo. Já os eletrodos externos são totalmente inofensivos. Os 31 pacientes foram selecionados por serem saudáveis, nunca terem tido problemas neurológicos ou psiquiátricos. E todos eles estavam sendo anestesiados para cirurgias nas pernas. O capacete com os eletrodos era colocado no voluntário antes da cirurgia e a atividade cerebral era medida por vários minutos antes da injeção do anestésico, durante a injeção e continuava a ser medido até o inicio da cirurgia.
Esses aparelhos detectam as ondas de corrente elétricas que se propagam pelo cérebro. É como se você tivesse uma séries de fios que conectam as diferentes áreas de sua casa. Se você acende a luz de um quarto e desliga o ar condicionado da sala, a corrente no fio que alimenta o quarto aumenta e o que alimenta as sala diminui. Nesse caso, com 128 eletrodos os cientistas conseguem medir as ondas que interligam 9 regiões do cérebro. Essas correntes têm um padrão quando estamos conscientes (antes da anestesia) e mudam quando se injeta o anestésico. Como esses padrões são muito parecidos entre diferentes pessoas os cientistas podem fazer a média do que ocorre com os 31 voluntários. E um padrão único surgiu em todos eles quando perderam a consciência.
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O estudo descreve o que ocorre na conexão entre cada par das 9 regiões do cérebro numa pessoa consciente e quando ela perde a consciência. O que os cientistas descobriram é que no momento em que a consciência desaparece a conexão entre diversas áreas distantes uma das outras desaparece ou diminui muito. As principais conexões e que parecem ser necessárias para a manutenção da consciência são as que existem entre as regiões parietal, occipital e subcortical do cérebro. Essas diminuem de maneira simultânea ao desaparecimento da consciência.
Essa descoberta descreve alguns dos fenômenos no cérebro que se correlacionam com a presença da consciência, da mesma forma que o som dos batimentos cardíacos e a medida da pressão arterial são fenômenos que indicam a presença de sangue circulando no corpo. Mas talvez o mais importante é que esses dados confirmam uma das diversas hipóteses sobre o que é a consciência. Essa hipótese sugere que a consciência surge quando diversas regiões do cérebro, responsáveis por atividades diferentes, como visão, memória e sentimentos, se comunicam. Nessa teoria a consciência não estaria localizada em uma região do cérebro, mas seria o resultado da integração do que é processado em cada região. É um passo importante na busca do entendimento do que é nossa consciência.
Mais informações: Neurophysiological connectomic signatures of consciousness during propofol-induced general anesthesia. Cell Reports Medicine.
https://doi.org/10.1016/j.xcrm.2025.102581 2026
