A geração que ninguém ouve
No passado domingo, dois países falaram-nos da juventude do nosso tempo. Na Sérvia, um movimento nascido nas universidades derrubou nas urnas o autocrata Aleksandar Vučić, ao fim de 14 anos de poder. No Brasil, Lula venceu uma segunda volta em que a Geração Z se partiu ao meio. Entre nós, centenas de jovens montaram tendas no Rossio e na Praça D. João I. Não pediam o fim de nenhuma guerra, pediam apenas uma casa.
Estará a geração mais nova a convergir em torno da paz, da inclusão e da sustentabilidade? A resposta honesta é mais exigente do que um simples sim.
A Sérvia é o caso mais expressivo. Depois de dois anos de protestos pacíficos contra a corrupção, nascidos da tragédia da Estação de Novi Sad, os estudantes não puseram os seus colegas na lista. Puseram médicos, professores, agricultores, gente com credibilidade e sem passado partidário. E num país de meios de comunicação capturados e redes infestadas de bots, não tentaram vencer no digital. Percorreram o país a pé e de bicicleta, aldeia a aldeia. O resultado foi a maior afluência às urnas em mais de três décadas e quase 53% dos votos, com uma maioria absoluta no Parlamento.
O Brasil conta outra história. As raparigas inclinaram-se para quem defendia os serviços públicos e os rapazes para o outro lado. Lula venceu porque reconquistou o território digital que a extrema-direita julgava seu. O deputado André Janones abriu no WhatsApp o canal "Exército do Lula", que ultrapassou os dez milhões de seguidores e distribuiu "missões" a apoiantes tratados como soldados, para ir buscar indecisos e........
