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Saramago, a revisão curricular ou a diluição do Nobel da Literatura

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31.03.2026

"De boas intenções está o inferno cheio", diz o povo. E diz bem. O que se conclui da leitura do documento que é, no fundo, a declaração de intenções do actual Ministério da Educação relativamente ao que serão os conteúdos literários do Ensino Secundário (10.º, 11.º e 12.º anos), é que a questão literária e mesmo a consolidação da aprendizagem da Língua Portuguesa não é verdadeiramente a questão axial que deveria guiar todas – repito, todas – as directrizes ministeriais.

Que se leia o arrazoado teórico do documento que está agora em discussão pública e lá teremos a tónica posta na óbvia relação entre a leitura literária e a construção do pensamento crítico; lá teremos o postulado da fruição estética e a defesa de que pensar e escrever e falar sobre obras literárias constitui um caminho para a cidadania e a inclusão; lá teremos, enfim, a evidente consideração de que estudar Literatura é aprofundar o autoconhecimento e a alteridade; lá teremos a princípio de que é essencial estudarem-se os autores maiores do idioma para a própria ideia de ética na Educação. Ninguém contesta estas verdades de La Palisse. Mas tudo isto embate num jargão tecnocrático que dilui, oculta, esconde e deturpa um ensino sério do texto literário, assim como maquiavelicamente conduz os professores, uma vez mais, a transformarem as suas aulas em roteiros de obediência cega ao que o ministério ordena.

Há aqui um dado fundamental: sobre a natureza facultativa de se leccionar ou não José Saramago no 12.º ano, em que momento foram ouvidos os professores de Português? Quem defende que os seus romances passem a ser opcionais? E porquê? E já agora, tendo em conta a........

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