Diogo Lorena Machado. Arriscar a poesia
Há livros que anunciam vozes singulares não porque essas vozes façam tábua-rasa da historicidade, mas, sobretudo, porque arrastam o passado dentro, um determinado passado. O facto é este: nos melhores casos, a grande poesia portuguesa do século XX e a que – muito mais rara – se tem vindo a publicar nestes primeiros 25 anos do XXI é sempre devedora da leitura e do eco que esse passado tem sobre quem se arrisca a escrever poemas numa época exausta. A nossa época.
Em bom rigor, quem assim considera a poesia - elo de elos, cadeia de transmissão, aprendizagem contínua – tem sempre a ganhar, uma vez que a herança se conjugará com o talento individual (di-lo Eliot) e dotará o aprendiz de uma sólida noção do risco que abraça.
“Não faças versos sobre acontecimentos”, escreveu Drummond. Mas se – falando hoje do livro de estreia de Diogo Lorena Machado – podemos aceitar que um dos riscos é escrever sobre acontecimentos (coisa que este livro de poemas soberanamente faz), não menos verdade é que, aos acontecimentos banais sobre que se debruça, Lorena Machado empresta uma consciência de linguagem que o protege de quedas no mais bacoco e estafado banal em poesia.
Quem tem perfeita memória do que é a poesia, como é o caso do autor deste belíssimo e exigente eu vinha para a vida e dão-me dias (Glaciar), e do que nela, como discurso, é o diálogo que o novo........
