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“Temporal de 1904 - Os cadáveres...”

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23.02.2026

O temporal que atingiu Portugal durante praticamente todo o mês de fevereiro deste ano provocou a morte de, pelo menos, 18 pessoas, causando ainda danos em várias estruturas essenciais do nosso país, como linhas férreas, estradas e autoestradas. Esta catástrofe faz lembrar outras que ocorreram noutras épocas e que causaram, da mesma forma, enorme destruição e até vítimas. Uma delas ocorreu precisamente no mês de fevereiro, mas do ano de 1904. Desde o início desse mês, Portugal foi atingido por uma enorme quantidade de chuva, que caía durante a noite e o dia de forma praticamente ininterrupta. Os ribeiros e os rios atingiram caudais muito superiores ao normal e, no mar, a ventania faziase sentir, provocando destruição de barcos e de casas situadas nas zonas próximas da costa. Houve ruas na Apúlia, em Esposende ou na Póvoa de Varzim que ficaram cobertas de espuma vinda do mar, situação que fazia lembrar um manto de neve. No Ribatejo, por exemplo, em diversas povoações, o trânsito tornouse impossível por causa das inundações. Em Coruche, a quantidade de água era tão elevada que destruiu searas, árvores e várias casas. Também as estradas e a linha férrea ficaram danificadas. Na região de Coimbra, o rio Mondego subiu cerca de cinco metros acima do seu nível normal, alagando parte das lojas e habitações da cidade. Nas localidades da região verificaramse destro-ços de árvores, de casas e vários ani- mais mortos. Para acudir aos habitantes isolados, foram necessários barcos para transportar os moradores de vários prédios. Também o rio Douro ficou com o caudal muito acima do seu nível normal. Os moradores da zona da Ribeira e de Vila Nova de Gaia viram as suas habitações rodeadas pelas águas do rio. No Minho ocorreram alguns episódios dramáticos, provocados pela enorme quantidade de água que se fez sentir nesses primeiros dias de fevereiro. Uma dessas tragédias ocorreu no rio Homem, em Terras de Bouro, e provocou a morte do padre Manuel José da Lomba. Este sacerdote, colocado numa paróquia de Viana do Castelo, deslocou-se à sua terra no início de fevereiro de 1904, tendo desaparecido no dia 10 desse mês. Três dias depois, foi encontrado a boiar nas margens do rio Homem. O corpo apresentava diversas contusões e o fato que vestia encontrava-se muito danificado. Manuel José da Lomba era um jovem sacerdote de apenas 39 anos e residia em Viana do Castelo há pouco tempo. A causa da morte foi a queda ao rio Homem, que na altura levava um caudal enorme, provocado pelas fortes chuvas que caíam em todo o Minho. Outra morte provocada pelas grandes tempestades desse ano de 1904 ocorreu no rio Este. Não se sabendo o local exato onde terá caído uma mulher, sabe se que o seu corpo foi visto a boiar nesse rio, na freguesia de Arentim, concelho de Braga. A corrente era de tal forma intensa que não foi fácil recuperar o corpo. A mulher foi vista no rio na segunda feira, dia 15 de fevereiro de 1904, vestida e ainda com um cordão de ouro ao pescoço. Segundo o “Commercio do Minho”, de 25 de fevereiro de 1904, a “corrente era impetuosa n’essa occasião, não obstante o alarme que se fez nas margens do rio, não foi possível recolher o cadaver, que foi visto depois passar na ponte de Coura, em Nine, na freguesia do Louro e em Cavalões”! O cadáver só foi possível ser retirado do rio na freguesia de Cavalões. Apesar de todos os esforços empregues, a identificação do cadáver tornou-se impossível. Assim, as autoridades resolveram sepultar esse corpo no cemitério de Balazar, sendo as despesas do funeral custeadas com o dinheiro angariado pela venda do colar de ouro que a senhora trazia. Ainda nessa segunda-feira, dia 15 de fevereiro de 1904, ocorreu outra morte, agora no ribeiro de Santa Marta, em Bouro. Aí apareceu a boiar o corpo de Joaquina da Silva, então conhecida por a “Coimbra”. Presume-se que aí se tivesse deslocado para lavar roupa, uma vez que foi encontrada ainda com um pedaço de sabão na sua mão! Como consequência das fortes chuvas, ocorreu outra morte nesta região. Foi na freguesia de Martim, concelho de Barcelos, quando um castanheiro caiu sobre o corpo de Domingos José de Oliveira, de 55 anos de idade. Ainda o conseguiram transportar para o hospital, mas o seu grave estado de saúde levou o à morte. As terras encharcadas contribuíram para a queda do castanheiro, que provocou a morte deste lavrador. As fortes e persistentes chuvas ocorridas em fevereiro desse ano provocaram ainda vários desastres. Um deles ocorreu na freguesia de Lanhas, concelho de Vila Verde, onde desabou a residência paroquial, em consequência da enorme invernia. O pároco, apesar de se encontrar no edifício, conseguiu escapar ileso à derrocada. Contudo, o maior desastre verificado nesse mês de fevereiro de 1904, provocado pelas chuvas, ocorreu no povoado de Moledo, freguesia de Fontelas, concelho de Peso da Régua. No início do século XX, essa localidade era conhecida pela qualidade das suas águas termais, que atraíam cerca de 500 pessoas todos os verões. Na parte superior do povoado corria um pequeno ribeiro que, devido às enormes chuvas de fevereiro de 1904, acumulou uma grande quantidade de água. Na noite de 9 para 10 de fevereiro, uma torrente caiu próximo da quinta dos Condes de Azambuja, situada nessa localidade. Essa torrente arrastou terras e vinhas existentes no local e embateu no grande reservatório da quinta, com capacidade para 4500 litros de água. Toda essa massa de água e detritos arrastou a então estrada real e parte da linha férrea, provocando a morte de 21 pessoas. Só na casa pertencente aos Condes de Azambuja, que ficou totalmente destruída, morreram 19 hóspedes que lá se encontravam. No dia seguinte, os bombeiros da Régua, os funcionários do município e dos caminhos de ferro tentaram limpar o mais rapidamente possível os escombros, mas apenas conseguiram recuperar quatro corpos. Os restantes 17 foram levados pela corrente do rio Douro, situado a cerca de 300 metros da casa, e nunca mais foram encontrados. Como se comprova, o nosso país sempre esteve sujeito a invernos rigorosos e a episódios climáticos extremos. Cabe a todos acautelar estas situações para que os danos causados afetem o menor número possível de pessoas.

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