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“Monte do Picoto - A cruz que...”

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08.03.2026

A paisagem urbana de Braga cruza-se com símbolos que guardam memórias profundas da identidade local e nacional. Assim, quem se coloca na Avenida Central e olha em frente, pela Avenida da Liberdade, em Braga, repara no Monte de S. João da Ponte, ou Monte Picoto, que tem no seu topo uma cruz em ferro. Esta cruz, situada na freguesia de Nogueira, foi colocada naquele local no dia 16 de junho de 1940 para assinalar os 300 anos da Restauração da Independência de Portugal, mas também para trazer algum conforto aos bracarenses num momento de incerteza para todos, já que a 2.ª Guerra Mundial devastava então a Europa. A sua finalidade era ainda destacar a religiosidade e o patriotismo dos bracarenses, características bem vincadas desta comunidade, assim como a fé que se esperava das pessoas que estavam à frente do Estado Novo. A iniciativa partiu da comissão de paroquianos da freguesia de S. Lázaro, à qual se juntaram muitos anónimos e várias figuras destacadas da sociedade bracarense. Na construção deste pequeno, mas simbólico, monumento, teve um papel decisivo o deputado bracarense Alberto Cruz. Alberto Cruz nasceu em S. Pedro de Este, Braga, no dia 25 de janeiro de 1890. Figura de proa do 28 de maio de 1926, gozava de grande simpatia, sobretudo pela dedicação que demonstrava para com os mais pobres. Foi diretor clínico do Hospital de S. Marcos; presidente da Junta Provisória do Minho; presidente da Comissão Distrital da União Nacional e da Comissão de Iniciativa e Turismo de Braga; presidente da Comissão Distrital de Assistência aos Tuberculosos; governador substituto de Braga; presidente do Ateneu Comercial de Braga; presidente do Aeroclube de Braga; e médico do extinto Batalhão n.º 6 da Guarda Nacional Republicana. Grande amigo do comendador António Augusto Nogueira da Silva e do comendador António Maria Santos da Cunha, foi deputado em diversas legislaturas. Era oficial da Ordem de Cristo e recebeu ainda dois louvores: um do Ministério da Guerra e outro do Ministério do Interior. Para o jornal Diário do Minho, de 9 de outubro de 1961, Alberto Cruz era uma pessoa muito “querida por quantos apreciavam as suas altas qualidades de homem e de cidadão, sobretudo o amor aos humildes, a dedicação à terra natal e o seu escrúpulo posto em bem servir o país”. Morreu no dia 8 de outubro de 1961, com 71 anos de idade. Teve também um papel importante na construção deste monumento a paróquia e o abade de S. Lázaro, que organizavam permanentemente atividades através das quais diferentes pessoas contribuíam para custear a obra. Para além dos indispensáveis donativos recebidos de importantes figuras públicas, tanto de Braga como de concelhos vizinhos, vários operários quiseram associar-se oferecendo materiais e o seu trabalho, de forma gratuita, para a concretização do monumento. Poucos dias antes da inauguração, tinham sido angariados 1.277$00, faltando apenas cerca de três centenas de escudos para que tudo ficasse completamente liquidado. A cerimónia de inauguração iniciou-se pelas 10h30 desse domingo, na igreja de S. Lázaro, e contou com a presença de milhares de pessoas que não quiseram deixar de assistir a este momento. Estiveram presentes o deputado bracarense Alberto Cruz, o comandante da PSP de Braga, Euclides de Barris, os Drs. Araújo e Gama, Rebelo da Silva e o cónego António José Ribeiro, abade da freguesia da Sé e professor no Seminário de Braga. A cerimónia foi presidida pelo pároco de S. Lázaro e arcipreste de Braga, Manuel Peixoto da Costa e Silva, e a missa foi celebrada pelo padre Domingos Fernandes, prefeito no Seminário de Braga. Durante o percurso, os habitantes colocaram colchas às janelas e varandas e lançavam flores sobre a multidão. A procissão, composta por milhares de pessoas, seguiu da igreja para o largo da Ponte e daí para a estrada de Guimarães, pelo lado mais plano, até ao “Pinheiro da Gregória”, o que facilitou a deslocação desta grande multidão num dia de imenso calor. Demorou cerca de uma hora e meia a chegar ao alto do monte, onde a população, cantando e rezando, chegou por volta do meio-dia, sempre ao som festivo de girândolas de foguetes. Integraram esta cerimónia várias crianças dos estabelecimentos de assistência de Braga, os alunos do Colégio das Missões do Espírito Santo, a banda da Oficina de S. José e muitas associações e organismos católicos e cívicos de diferentes freguesias da região, que não quiseram perder a oportunidade de marcar presença num momento tão importante para Braga. Durante todo esse dia, a romagem ao alto do Monte Picoto foi constante. Estava ainda previsto que a cruz tivesse projetores, numa solene demonstração da crença dos bracarenses, cuja iluminação seria visível até de locais mais distantes. O monumento foi benzido pelo padre Manuel Costa e Silva, e foi colocada uma placa onde se podia ler: “…Cumprindo a vontade do ilustre arcipreste sr. padre Manuel Peixoto da Costa e Silva, com a colaboração preciosíssima do Ex.mo Senhor Dr. Alberto Cruz e com a ajuda dos bracarenses…”. Para o jornal Correio do Minho, na edição de 18 de junho de 1940, a “cerimónia de inauguração oficial e bênção solene da cruz que, mercê da piedade e patriotismo dos bracarenses, se ergue no alto do Monte de S. João, constituiu uma manifestação grandiosa de fé e revestiu-se de brilhantismo raro e até imprevisto”. A concretização desta obra elevou mais uma vez o nome de Braga e dos bracarenses, que souberam “dar o exemplo sublime das suas convicções religiosas e afirmar bem claramente as suas honrosas tradições que, vindo de longe e procurando manter, constituem o mais legítimo título de orgulho da Velha Cidade dos Arcebispos”. O orgulho dos bracarenses foi bem visível nesse dia de inauguração, que foi “sem dúvida, das mais belas e significativas de quantas se têm realizado em Braga nos últimos tempos”. Acresce que a realização desta obra foi um dos temas mais discutidos em Braga. Os elogios à iniciativa eram constantes, sobretudo numa altura em que Portugal e a Europa atravessavam um período muito difícil, marcado pela destruição, pela morte, pelo sofrimento, pela fome e pelo horror desencadeados pela 2.ª Guerra Mundial, que estava ainda no seu primeiro ano. Questionava-se em Braga o que seria da vida material, marcada pelos horrores da guerra e da fome, sem a presença da espiritualidade e da crença religiosa, simbolizadas nesta cruz agora inaugurada no Monte Picoto. Lembrava-se ainda que Jesus Cristo morreu numa cruz para salvar a humanidade. Passados 80 anos da inauguração desta cruz, também no Monte Picoto foi colocada, a 6 de abril de 2020, uma luz em forma de arco-íris, num momento em que Portugal e o mundo atravessavam um dos períodos mais marcantes das últimas décadas, devido à pandemia de Covid-19. Essa luz foi ali colocada para recordar a religiosidade e a fé dos bracarenses, com a esperança de que iria “ficar tudo bem”.

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