Quem protege a infância das máquinas que fabricam imagens?
Ontem, enquanto o Dia das Crianças enchia as redes sociais de pequenos sorrindo diante do bolo, da bicicleta nova, do brinquedo desejado, percorri essas fotos aqui em Brasília com uma pergunta que me acompanhou. Sou avô de netas e conheço muito bem o impulso de mostrar ao mundo a alegria de quem amamos. Desta vez, porém, cada imagem compartilhada me devolvia a um relatório que chegou de Londres há oito dias e me obrigou a olhar para esse álbum coletivo com outros olhos.
No dia 5 de outubro, a Internet Watch Foundation, organização britânica dedicada a combater a difusão de material de abuso sexual infantil, divulgou que no primeiro semestre deste ano detectou 40% mais imagens desse tipo geradas por inteligência artificial do que em todo o ano de 2025. A entidade analisou 6.310 imagens fotorrealistas que se enquadram na definição legal de abuso. Em 98% dos casos, as vítimas retratadas são meninas. Em 79%, têm entre sete e treze anos. Mais de mil imagens envolvem crianças pequenas, de três a seis anos. Cento e noventa retratam bebês de cerca de dois anos de idade.
Releio esses números duas vezes seguidas e preciso parar por alguns minutos. Cada um deles carrega o rosto de alguém.
Como psicanalista, penso no que acontece com uma menina que descobre, na escola, que circula entre os colegas uma imagem falsa e degradante com o seu........
