menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O Brasil entrou na corrida mineral do século XXI. Como potência ou como colônia?

10 0
14.06.2026

Durante dois dias, representantes do governo federal, do Congresso, da indústria mineral, de universidades e de instituições de pesquisa debateram um tema que até pouco tempo permanecia restrito aos especialistas. O que está em jogo não é apenas a exploração de minerais críticos, mas a posição que o Brasil ocupará na economia do século XXI: fornecedor de matérias-primas para as grandes potências ou protagonista de um novo projeto nacional de desenvolvimento.

Quando um seminário revela uma mudança histórica

Há alguns anos venho escrevendo sobre soberania tecnológica, dependência econômica, guerra informacional, reindustrialização e as transformações geopolíticas produzidas pela reorganização das cadeias globais de poder. Sob diferentes formas, todas essas questões conduzem a uma mesma pergunta: quem controlará os recursos, as tecnologias e as infraestruturas que sustentarão a economia do século XXI?

Foi com essa preocupação que estive em Brasília, nos dias 9 e 10 de junho, para acompanhar o Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos, promovido pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM). Minha presença no evento foi viabilizada graças ao apoio da Rede Lawfare Nunca Mais e da Rede pela Soberania. Mais do que um gesto de apoio individual, essa decisão revelou uma compreensão estratégica rara sobre a importância do tema. Em um momento em que boa parte do debate público ainda dedica pouca atenção aos minerais críticos, essas organizações compreenderam que a disputa em torno desses recursos influenciará diretamente o desenvolvimento econômico, tecnológico e industrial do Brasil nas próximas décadas. Registro aqui não apenas meu agradecimento, mas meu reconhecimento político e intelectual pela lucidez daqueles que entenderam a dimensão histórica desse debate.

Eu não fui a Brasília para descobrir a importância dos minerais críticos. A relevância desse tema já se tornou evidente há muito tempo para quem acompanha a disputa global por tecnologia, energia, infraestrutura digital, inteligência artificial e capacidade industrial. O que encontrei no seminário foi a confirmação de que uma questão antes restrita a especialistas, pesquisadores e formuladores de políticas públicas passou definitivamente a ocupar o centro das disputas estratégicas do nosso tempo.

O próprio perfil do evento revelava isso. Reunidos no mesmo espaço estavam representantes das maiores mineradoras em operação no país, membros do governo federal, parlamentares, bancos públicos, universidades, centros de pesquisa, agências reguladoras e instituições ligadas à política industrial e tecnológica. Raramente atores tão distintos convergem em torno de um mesmo tema sem que algo estrutural esteja em movimento.

Talvez essa tenha sido a principal constatação daqueles dois dias.

Os minerais críticos deixaram de ser apenas uma questão mineral. Tornaram-se uma questão de poder.

Estão presentes nas cadeias produtivas que sustentam a inteligência artificial, os semicondutores, os sistemas avançados de defesa, os veículos elétricos, as redes de telecomunicações, os data centers e boa parte das tecnologias que reorganizam a economia mundial. Quem observa apenas a mina vê apenas uma parte da história. Quem observa as cadeias produtivas, os fluxos tecnológicos e os interesses geopolíticos percebe algo maior: estamos diante de uma das mais importantes disputas econômicas e estratégicas do século XXI.

Por essa razão, este artigo inaugura uma série dedicada a analisar os debates observados em Brasília e suas implicações para o Brasil. O objetivo não é reproduzir palestras nem resumir apresentações. É compreender o significado histórico de um fenômeno que atravessa indústria, tecnologia, geopolítica, desenvolvimento e soberania.

A pergunta que orientará toda esta série é simples.

O Brasil entrou definitivamente na corrida mineral do século XXI.

O que permanece em disputa é a forma como pretende participar dela.

Um seminário corporativo diante de uma questão nacional

O primeiro aspecto que chamou atenção no seminário foi uma aparente contradição. Embora organizado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), principal entidade representativa do setor mineral, o evento ultrapassava em muito os limites de uma discussão corporativa. Não era difícil compreender por quê.

As empresas presentes tinham razões evidentes para estar ali. Vale, BHP, Anglo American, CBMM, Serra Verde e outras companhias sabem que a corrida global pelos minerais críticos abriu uma das maiores oportunidades econômicas das próximas décadas. A expansão dos veículos elétricos, dos data centers, da inteligência artificial, das redes de energia e da indústria avançada transformou terras raras, lítio, cobre, grafita e nióbio em ativos cada vez mais valorizados.

Mas seria ingenuidade imaginar que todos os participantes do seminário estavam ali defendendo exatamente os mesmos objetivos.

Para as grandes corporações mineradoras, o desafio central consiste em ampliar investimentos, acelerar projetos e garantir condições regulatórias favoráveis para disputar mercados globais em rápida expansão. Para setores do Estado, da pesquisa científica e da política industrial, a questão é mais complexa. O que estava em discussão não era apenas como extrair mais, mas como evitar que uma riqueza estratégica produzisse, mais uma vez, benefícios desproporcionais para agentes privados enquanto os maiores ganhos tecnológicos, industriais e econômicos fossem apropriados em outras etapas das cadeias globais de valor.

Essa tensão raramente aparecia de forma aberta nos discursos. Mas estava presente no ambiente. E ajuda a explicar por........

© Brasil 247