Do Trump Rio Hotel ao Caso Master: anatomia do crime organizado no Brasil
Documentos da CVM, decisões judiciais, investigações da Polícia Federal, relatórios do Banco Central e reportagens de Reuters, CNN e AP permitem reconstruir, pela primeira vez, a anatomia financeira de uma engrenagem que atravessa mais de uma década. Do FIP que financiou o antigo Trump Rio Hotel aos fundos investigados na Carbono Oculto, passando por BRB, Reag, Rioprevidência e Banco Master, este artigo mostra como o crime organizado deixou de operar apenas nas margens da economia brasileira e passou a ocupar estruturas sofisticadas do próprio mercado financeiro.
O dia em que as peças começaram a se encaixar
Em 26 de maio de 2026, Paulo Figueiredo Filho apareceu em Washington ao lado de Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, em encontro com Donald Trump. A imagem circulou nas redes bolsonaristas justamente no momento em que o sistema financeiro brasileiro atravessava uma das maiores crises de credibilidade de sua história recente. Meses antes, o Banco Master havia entrado no centro de investigações envolvendo suspeitas de fraude bilionária, letras financeiras sem lastro adequado, fundos estruturados e operações sob análise da Polícia Federal, do Banco Central, do Tribunal de Contas da União e do Ministério Público Federal. Em novembro de 2025, a Reuters revelou que uma decisão judicial apontava “evidências de participação consciente” de executivos do BRB em um suposto esquema fraudulento ligado ao Master, com movimentações estimadas em R$ 16,7 bilhões entre julho de 2024 e outubro de 2025. Paralelamente, a Operação Carbono Oculto avançava sobre uma infraestrutura financeira que, segundo a própria Polícia Federal, movimentou mais de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024 por meio de fintechs, fundos de investimento, empresas de fachada e estruturas usadas para lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial.
O encontro talvez tivesse passado apenas como mais um episódio da aproximação entre o bolsonarismo e o trumpismo se Paulo Figueiredo Filho não reaparecesse, mais de uma década depois, no centro de uma cronologia que conecta fundos imobiliários, previdência, operações financeiras e investigações sobre lavagem de dinheiro. Mais de uma década antes, ele já aparecia no núcleo do Trump Rio Hotel, empreendimento lançado na Barra da Tijuca em 2013 como a principal aposta da Trump Organization no mercado imobiliário brasileiro. O hotel seria operado pela Trump Hotel Collection Rio LLC e estruturado financeiramente pelo FIP LSH, fundo abastecido por recursos de entidades previdenciárias e investidores institucionais. Em dezembro de 2024, no julgamento do Processo Administrativo Sancionador nº 19957.007626/2019-94, a Comissão de Valores Mobiliários concluiu que o empreendimento foi utilizado em uma operação fraudulenta baseada em superavaliação de ativos, emissão artificial de cotas e transferência indevida de riqueza.
O caso parecia encerrado quando a marca Trump deixou oficialmente o empreendimento em dezembro de 2016. Não estava. Nos anos seguintes, Greenfield e Circus Maximus colocariam o FIP LSH, fundos previdenciários e operações ligadas ao BRB no centro de investigações sobre corrupção, lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta. Depois, Carbono Oculto revelaria uma engrenagem financeira subterrânea baseada em fintechs, FIDCs, distribuidoras, administradoras e estruturas de circulação opaca de recursos. Em seguida, a Reag surgiria como elo entre fundos sob investigação, suspeitas de lavagem e operações relacionadas ao Banco Master. O próprio BRB reapareceria no núcleo da nova crise financeira.
Este artigo não sustenta que Donald Trump controlava conscientemente as operações investigadas pela Polícia Federal no Brasil. Também não afirma que todos os personagens presentes nas diferentes fases dessa cronologia participavam deliberadamente da engrenagem revelada anos depois pela Carbono Oculto e pela Compliance Zero. O que a documentação pública permite afirmar é algo mais profundo e estrutural: o Trump Rio Hotel já operava dentro de uma arquitetura financeira baseada em fundos estruturados, dinheiro institucional, patrimônio superavaliado, administradores fiduciários e estruturas opacas de circulação de riqueza. E essa mesma lógica reaparece, anos depois, ampliada e financeirizada, nas investigações que atingiram Reag, Banco Master, BRB e fundos sob suspeita de lavagem e fraude financeira.
A anatomia dessa engrenagem começa muito antes do Caso Master.
O nascimento do Trump Rio Hotel | Fundos, previdência e dinheiro institucional
Quando o Trump Rio Hotel foi lançado em 2013, o empreendimento foi apresentado como símbolo da entrada definitiva da marca Trump no mercado imobiliário brasileiro. Localizado na Barra da Tijuca, região impulsionada pelos investimentos da Olimpíada de 2016, o projeto prometia retorno elevado, valorização acelerada e integração ao circuito internacional de hotéis de luxo. Por trás da campanha de marketing, porém, existia uma estrutura financeira muito mais sofisticada do que a de uma incorporação imobiliária convencional.
O empreendimento foi organizado por meio do FIP LSH, fundo de investimento em participações criado para captar recursos e financiar o projeto. O hotel seria operado pela Trump Hotel Collection Rio LLC, vinculada à Trump Organization. Nos documentos analisados posteriormente pela Comissão de Valores Mobiliários, aparecem nomes centrais da operação, entre eles Paulo Figueiredo Filho, Ricardo Siqueira Rodrigues, BRB DTVM, Planner Trustee, Orla DTVM, More Invest e empresas ligadas ao grupo responsável pelo empreendimento. Segundo o Processo Administrativo Sancionador nº 19957.007626/2019-94, a estrutura mobilizou aproximadamente R$ 247 milhões em cotas subscritas por entidades previdenciárias e investidores institucionais.
Esse ponto é central para compreender o que viria depois. O Trump Rio Hotel não nasceu apenas como um ativo imobiliário de luxo. Ele nasceu como uma operação financeira baseada em fundos estruturados, administradores fiduciários, patrimônio projetado e dinheiro institucional. O coração da engrenagem era a valorização acelerada do empreendimento. Segundo o voto do diretor relator da CVM, o hotel foi sustentado por laudos considerados artificialmente inflados, permitindo a emissão de cotas em valores incompatíveis com a realidade econômica do ativo.
A lógica era simples e sofisticada ao mesmo tempo. Quanto maior o valor formalmente atribuído ao empreendimento, maior a capacidade de emissão de cotas, de cobrança de taxas e de circulação de pagamentos dentro da própria estrutura do fundo. A CVM concluiu posteriormente que houve transferência indevida de riqueza para empresas ligadas aos operadores da operação sem comprovação adequada dos serviços prestados. O que parecia apenas um projeto imobiliário agressivo dos anos olímpicos começava a revelar características muito mais próximas de uma engenharia financeira baseada em patrimônio artificial, fundos estruturados e circulação opaca de recursos.
A presença do BRB DTVM nesse núcleo se tornaria decisiva anos depois. O mesmo BRB que aparecia na estrutura do FIP LSH reapareceria posteriormente no contexto das investigações envolvendo Banco Master, Reag e Compliance Zero. O elo não estava........
