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Da ALCA aos minerais críticos: Lula e os 21 anos de uma guerra invisível pela soberania do Brasil

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24.09.2026

A crise atual não começou com Trump e não cabe numa eleição. Da derrota política da ALCA à espionagem da Petrobras, da Lava Jato à ascensão da China e à disputa por dados, alimentos e minerais, o Brasil atravessou duas décadas de pressões, rupturas e escolhas soberanas. No centro dessa história está Lula e uma pergunta que nunca desapareceu: quem decide o lugar do Brasil no mundo?

2005, quando o Brasil começou a dizer não

Há muitos anos venho estudando guerra híbrida, operações psicológicas e as novas formas de disputa pelo poder. O tema atravessou minha tese de doutorado e boa parte do que escrevi desde então. Voltar a 2005 para este artigo, porém, me obrigou a desconfiar da explicação que eu próprio havia construído. Uma sequência histórica pode ser impressionante e ainda assim não provar causalidade. Duas crises podem acontecer ao mesmo tempo sem nascer da mesma decisão. Foi esse incômodo que orientou a pesquisa: procurar o ponto em que a documentação termina e a interpretação começa. O que encontrei não foi uma ordem secreta inaugurando uma guerra contra Lula. Foi algo mais sólido. Naquele momento, o Brasil começava a alterar sua posição relativa no sistema internacional.

Lula chegou ao Planalto em 2003 cercado pela expectativa de ruptura, mas governou os primeiros anos preservando compromissos macroeconômicos e mantendo interlocução intensa com Washington. A mudança mais importante ocorria na política externa. Mercosul, América do Sul, África, mundo árabe, China, Índia e novas coalizões comerciais passaram a ocupar espaço que antes era muito menor. Em janeiro de 2005, um telegrama da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília registrou que alterar a “geografia do comércio” havia se tornado uma marca do governo e que algumas dessas parcerias carregavam objetivos geopolíticos. Não era ainda confronto. Era diversificação. E diversificar, para um país periférico, significa reduzir o preço político de depender de um único centro de poder.

A ALCA condensou esse conflito. O acordo deveria ter sido concluído em janeiro de 2005, mas o prazo morreu sem consenso. O próprio órgão de controle do Congresso americano registrou o impasse entre coalizões lideradas por Estados Unidos e Brasil em torno de agricultura, subsídios, serviços, investimentos, propriedade intelectual e compras governamentais. Brasília não abandonou formalmente a negociação. Em novembro, depois de Mar del Plata, Lula e George W. Bush ainda reafirmaram compromisso com o processo dentro do marco de Miami. O que se tornara inviável era a ALCA tal como havia sido concebida nos anos 1990. O Brasil aceitava integração, mas queria preservar espaço para política econômica, exigir abertura agrícola e construir alternativas. Autonomia, naquele contexto, não era hostilidade aos Estados Unidos. Era capacidade de negociar sem ficar encurralado.

No mesmo ano, o governo mergulhou na crise dos Correios e do mensalão. A coincidência entre o bloqueio político da ALCA e a explosão doméstica é sedutora, sobretudo quando se olha retrospectivamente para tudo o que viria depois. Eu mesmo trabalhei durante anos com essa hipótese. A documentação disponível, contudo, não permite afirmar que Washington produziu aquela crise como retaliação. A investigação parlamentar revelou interesses empresariais, conflitos partidários, corrupção e personagens ligados ao sistema brasileiro de inteligência. Há perguntas que permanecem abertas, mas não há prova pública suficiente para transformar simultaneidade em comando externo. O dado histórico que resiste é outro: a partir de 2005, o Brasil passou a exercer uma autonomia que seria testada em terrenos cada vez mais sensíveis. A questão já não era apenas comercial. A autonomia brasileira havia se tornado uma variável estratégica.

Quando autonomia deixou de significar apenas comércio

O pré-sal deu peso material a essa mudança. A descoberta de grandes reservas em águas profundas, seguida pelo anúncio de Tupi em 2007, colocou energia, tecnologia e capacidade estatal no centro da projeção brasileira. Em 2009, Brasil, Rússia, Índia e China realizaram a primeira cúpula do BRIC e defenderam maior participação das economias emergentes nas instituições internacionais. No ano seguinte, Lula e Recep Tayyip Erdoğan negociaram com o Irã a Declaração de Teerã sobre combustível nuclear. Washington rejeitou a solução e avançou com sanções no Conselho de Segurança. O episódio não rompeu a relação bilateral, mas revelou algo que já não cabia na velha imagem de um país apenas regional. Brasília começava a entrar em assuntos que as grandes potências tratavam como parte de sua esfera principal de decisão.

Em 2013, o conflito ganhou outra natureza. Os documentos de Edward Snowden mostraram que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos havia espionado comunicações do governo brasileiro e incluído a Petrobras entre seus alvos. Pela primeira vez nessa trajetória, não se tratava de interpretar interesses ou comparar agendas. Havia uma ação de inteligência documentada contra o núcleo político e econômico do Estado brasileiro. Dilma Rousseff levou o caso à Assembleia Geral da ONU, cancelou a visita de Estado que faria a Washington e passou a defender mecanismos de proteção de comunicações e........

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