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Um Brasil tri-oceânico com trilhas de paz, cooperação, prosperidade e conhecimento

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25.09.2026

“Trilhas” podem ser escolha de narrativa de política externa favorável ao Brasil, sobretudo se a intenção for construir uma linguagem diplomática própria, diferente do discurso de grandes projetos de infraestrutura e projeção geopolítica. Seria, então, feita a distinção entre “rota”, que é mais física e geoeconômica, e “trilha”, que pode ser mais humana, gradual e multidimensional.

Peço vênia, a propósito, para refinar reflexão sobre cenário futuro, publicada em 4 de fevereiro passado no LinkedIn, partindo dos interesses que nos são mais próximos. Recorrerei a experiências pessoais, vividas na África, Ásia e Índia, como diplomata brasileiro.

Teríamos, assim, que identificar como uma das condicionantes principais, para tal cenário futuro favorável, a capacitação, por exemplo, para negociação com a “rota” chinesa, que pretende se expandir pela América Latina e África, em nosso entorno mais próximo.

Seria conveniente, então, poder contar com uma “trilha” brasileira e uma “avenida” africana – para negociar em patamar mais próximo daquela iniciativa da China e de outros projetos de integração regionais, desde que sejam correta e prontamente identificadas nossas potencialidades nacionais e do continente ao qual pertencemos, bem como as vantagens competitivas das áreas continentais que nos são vizinhas ou parceiras em potencial.

Mais adiante, neste exercício de reflexão, proporei que se pense em projeto nacional brasileiro que coloque o Brasil como um ponto de convergência entre grandes espaços do Sul Global. Isto é, poderia haver uma estratégia brasileira muito mais ampla, que abrangeria o Atlântico Sul, a América do Sul, a África, a ASEAN e a Ásia, numa imensa trilha de cooperação.

Nesse modelo, o Brasil não precisaria competir com China, Índia ou outras potências pela liderança do Sul Global. Poderia exercer uma função diferente, como conector entre regiões.

Cabe, no entanto, iniciar a proposta acima pelo exame do que nos é imediato e nos define para chegar à inserção estratégica regional e mundial de nosso País.

Nesse processo, é indiscutível que uma política brasileira para o Atlântico Sul seja prioritária. Para além da grande quantidade e densidade de iniciativas multilaterais e bilaterais promovidas, ao longo de décadas, no sentido de consolidar uma região de paz, cooperação e desenvolvimento sustentável, é preciso considerar ainda a importância desta área marítima para a formação de nossa própria identidade nacional.

Percurso por onde passa cerca de 95% de nosso comércio exterior, fonte de grandes riquezas minerais e biológicas, as potencialidades do Atlântico Sul ainda não são plenamente aproveitadas pela sociedade brasileira.

Nesse sentido, como maior país da região, tanto em termos populacionais e geográficos quanto econômicos, compete ao Brasil assumir crescentes responsabilidades na segurança e gestão desse espaço e na concertação entre os países africanos e sul-americanos, de modo a conciliar interesses nacionais distintos e manter a região longe de tensões geopolíticas extrarregionais.

Este seria um dos fatores que contribuiriam para um projeto nacional brasileiro e a identificação de novas formas de cooperação que viessem a identificar soluções comuns para problemas compartilhados através do Atlântico Sul.

Verifica-se, a respeito, que a emergência de uma Nova África está presente tanto na história, na geografia e na política do continente africano contemporâneo como também em proposta da evolução de processo de integração com a margem sul-americana do Atlântico Sul. Entretanto, ambas as regiões ainda estão marcadas pela influência do seu passado, com seus distintos itinerários já percorridos, e da visualização de suas trajetórias estratégicas previstas para o século XXI, que ainda não estão em sintonia.

Retornando ao que diz respeito à proposta de um enunciado de “prosperidade através do Atlântico”, cabe a sugestão de que haja reflexão também sobre cenário futuro que valorize um Brasil “tri-oceânico”, levando em conta nossa influência em ambas as margens do Atlântico e a consolidação do acesso ao Pacífico e ao Índico.

Assinalo que, como diplomata, tive o privilégio de desempenhar cinco missões na África. As três primeiras, permanentes, sucessivamente em Libreville, Gabão, e Maputo, Moçambique, entre 1976 e 1979, e Pretória, na África do Sul, como encarregado de negócios (chefe interino) até 1982, durante a vigência do apartheid. As duas últimas, temporárias, em Uagadugu, Burkina Faso, durante três meses, em 2013, e, por dois meses, no ano seguinte, em Cotonou, Benin.

Deste total de quase sete anos vividos em solo africano, trago, entre outras lembranças, a noção da importância de reviver o imaginário da consolidação de parceria entre a América do Sul e a África, que se aproximam pelo Oceano Atlântico. Este seria fator que contribuiria para um projeto nacional brasileiro e a identificação de novas formas de cooperação que viessem a identificar soluções comuns para problemas compartilhados.

A linguagem chinesa da “Belt and Road Initiative”, que é utilizada em projetos no entorno brasileiro, na África e na América do Sul e Central, trabalha fortemente com a ideia de rotas, corredores, conectividade e infraestrutura. “Rota” transmite direção, fluxo e ligação entre pontos.

“Trilha”, por outro lado, sugere um caminho a ser construído progressivamente. Nesse sentido, tem que haver exploração de novas oportunidades, aprendizagem, intercâmbio, diversidade de trajetórias, participação de diferentes atores e possibilidade de múltiplos caminhos para chegar a um objetivo.

Tal postura combina com a concepção brasileira de cooperação. Ao invés de propor a criação de “corredores Brasil–África–Ásia”, poderíamos sugerir “abrir trilhas de prosperidade entre povos, continentes e oceanos”.

É uma mudança aparentemente pequena, mas conceitualmente importante, na medida em que “trilha” seria conceito abrangente, enquanto “rota” sugere fluxos físicos.

Por exemplo, “Trilhas de Prosperidade” poderia adotar conceito geral a incluir: Trilhas do Atlântico — Brasil–África; dos Oceanos — Atlântico–Índico–Indo-Pacífico; do Conhecimento — universidades, ciência e IA; da Inovação — tecnologia e empreendedorismo; da Energia — biocombustíveis, hidrogênio e energias renováveis; dos Alimentos — agricultura e segurança alimentar; da Cultura — música, cinema, literatura e patrimônio; da Juventude — intercâmbio e formação; da Economia Azul — oceanos, pesca, biodiversidade e portos; e Digitais — cabos, dados, conectividade e........

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