O paradoxo da abundância: por que o brasileiro ganha mais e consome menos?
Há algo aparentemente contraditório acontecendo atualmente na economia brasileira. O desemprego está próximo do mínimo histórico, a ocupação alcança níveis recordes e o rendimento real do trabalho permanece elevado. Ainda assim, o consumo das famílias, que durante muito tempo funcionou como um dos principais motores da economia, começa a perder força.
No segundo trimestre de 2026, a despesa de consumo das famílias caiu 0,4% em relação aos três meses anteriores, depois de ter avançado 0,8% no primeiro trimestre. O recuo chama atenção porque ocorre justamente quando o mercado de trabalho apresenta uma situação excepcionalmente favorável.
Não se trata, portanto, do velho problema brasileiro da falta de emprego. O paradoxo atual é outro, pois o Brasil está conseguindo gerar trabalho e renda, mas essa renda não está se transformando plenamente na mesma proporção em consumo.
A explicação talvez esteja escondida numa diferença aparentemente simples, uma vez que a renda bruta não é o mesmo que renda disponível. O emprego vai bem. O bolso, nem tanto.
A PNAD Contínua registrou taxa de desocupação de 5,3% no trimestre encerrado em julho, enquanto a população ocupada chegou a 103,3 milhões de pessoas. O número de trabalhadores com carteira assinada no setor privado também atingiu recorde, com 39,4 milhões.
É uma mudança importante em relação a períodos anteriores. Mais pessoas trabalham, mais pessoas recebem rendimentos e o mercado de trabalho demonstra extraordinária resistência mesmo diante de uma política monetária restritiva.
Mas há um segundo aspecto acontecendo simultaneamente. O Banco Central revelou que o comprometimento da renda das famílias com dívidas alcançou níveis historicamente elevados. A inadimplência no crédito livre chegou a 6,4% em julho, enquanto, entre as pessoas físicas, alcançou 7,8%.
Em outras palavras, uma parcela crescente da renda que chega às famílias já tem destino definido antes mesmo de chegar ao supermercado, à loja, ao restaurante ou ao comércio........
