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O país não cabe numa pegadinha

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02.10.2026

A televisão brasileira se habituou a buscar nos Estados Unidos modelos de entretenimento, linguagens e maneiras de organizar o espetáculo. Essa influência não elimina sua criatividade, mas revela uma dependência que precisa ser interrogada: por que formatos concebidos em outra sociedade passam a ser tratados como instrumentos universais, adequados a qualquer realidade?

Na cobertura eleitoral, essa dependência assume consequências particularmente graves. Importa-se a encenação do confronto, reproduzem-se suas convenções e apresenta-se o resultado como uma exigência da democracia. Candidatos alinhados diante das câmeras, cronômetros, perguntas, réplicas e tréplicas: a repetição conferiu a essa fórmula uma autoridade que raramente se submete à avaliação de sua utilidade.

A discussão sobre sua qualidade costuma começar e terminar na conduta dos participantes. Pouco se pergunta se o próprio dispositivo favorece aquilo que promete oferecer: compreensão dos problemas nacionais e conhecimento dos projetos apresentados para enfrentá-los.

O cancelamento do debate presidencial da TV Globo previsto para 1º de outubro teve causas imediatas relacionadas às ausências dos principais candidatos e às decisões judiciais que alteraram as regras do encontro. Essas circunstâncias precisam ser reconhecidas. Entretanto, o episódio permite examinar uma crise mais profunda: o desgaste de uma fórmula cuja solenidade democrática já não corresponde à sua capacidade de esclarecer o eleitor.

Na entrevista ao Flow, naquela mesma noite, Lula apontou o centro dessa deficiência. A discussão não ganha continuidade. Intervenções curtas, respostas distantes umas das outras e provocações sucessivas impedem o desenvolvimento do raciocínio. Ao classificar esses encontros como “infrutíferos”, identificou uma dinâmica que favorece piadas, pegadinhas e frases destinadas à repercussão imediata. Nesse diagnóstico, está corretíssimo.

É uma crítica que merece ser compreendida em toda a sua extensão. O problema ultrapassa o excesso de candidatos, a distribuição dos minutos ou o comportamento de determinado participante. Envolve a transformação da política em produto audiovisual e a subordinação da reflexão às exigências de uma apresentação competitiva.

O confronto televisionado entre Kennedy e Nixon, em 1960, tornou-se um marco internacional da comunicação eleitoral. Sua projeção histórica, porém, não transforma aquela experiência em resposta permanente às necessidades de todas as democracias. Uma convenção de comunicação precisa ser julgada pelo que permite compreender, pelas relações que torna visíveis e pelas questões que deixa de fora.

O Brasil possui outra formação social, outra organização partidária e outras urgências. Nossa desigualdade exige compreender a relação entre renda, patrimônio, tributação, trabalho e acesso a direitos. A segurança pública envolve investigação, inteligência, circulação de armas, sistema prisional e financiamento das organizações criminosas. A........

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