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A urna sitiada: quando a democracia normaliza seus inimigos

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30.08.2026

O início da campanha eleitoral de 2026 revela uma tragédia que o Brasil insiste em não enxergar: organizações criminosas, herdeiros políticos das milícias, propagadores do golpismo e representantes de uma ordem branca, masculina e heteronormativa já não rondam as instituições pelo lado de fora. Eles aprenderam a disputar eleições, ocupar partidos e utilizar a própria democracia para corroer seus fundamentos.

A campanha eleitoral começou. Os candidatos escolhidos pelas convenções partidárias apresentaram seus pedidos de registro, passaram a pedir votos e ocuparam as ruas, as redes sociais, o rádio e a televisão. Convém fazer desde logo uma precisão jurídica: nem todo pedido de registro protocolado está definitivamente deferido. Alguns ainda dependem do julgamento da Justiça Eleitoral e outros são objeto de impugnação. Há candidaturas, portanto, que poderão ser afastadas.

Mas o dado político mais grave antecede a decisão judicial. Certos nomes foram escolhidos, acolhidos e apresentados pelos partidos. Encontraram legendas dispostas a lhes oferecer estrutura, recursos, tempo eleitoral e respeitabilidade institucional. Não chegaram às urnas escondidos. Foram conduzidos até elas.

Nesse sentido, o Brasil já falhou miseravelmente.

Falhou porque os interesses das milícias e das organizações criminosas conseguiram penetrar no sistema partidário. Falhou porque o pensamento golpista, mesmo depois da devastadora experiência de 8 de janeiro de 2023 e das condenações decorrentes da tentativa de ruptura institucional, continua eleitoralmente organizado. Falhou porque o supremacismo branco, masculino e heteronormativo — ainda que frequentemente disfarçado sob expressões como “defesa da família”, “liberdade”, “ordem” e “civilização ocidental” — permanece convertendo preconceitos, hierarquias e violências em programa de poder.

Essas forças não formam necessariamente uma organização única, dotada de comando centralizado. Tampouco se pode afirmar que todo conservador, policial, militar ou religioso pertença a elas. O fenômeno é mais complexo e, por isso mesmo, mais perigoso. Trata-se da convergência de interesses distintos em torno de uma mesma concepção autoritária de sociedade: o poder pertence aos fortes; a violência substitui o direito; determinadas vidas valem menos; a oposição deve ser eliminada; as instituições somente são legítimas quando servem ao grupo dominante.

Da clandestinidade ao palanque

As milícias brasileiras não nasceram espontaneamente nas primeiras décadas deste século. Suas raízes alcançam os grupos de extermínio formados por agentes e ex-agentes do Estado, especialmente durante a ditadura militar e nos anos seguintes. Inicialmente apresentados como justiceiros, esses grupos diziam proteger comerciantes e moradores contra assaltantes. Na prática, executavam pessoas sem julgamento, impunham medo às comunidades e transformavam o monopólio estatal da força em mercadoria privada.

Nas periferias do Rio de Janeiro, parte desse modelo evoluiu para as chamadas milícias. Policiais, ex-policiais, bombeiros, agentes penitenciários e civis armados passaram a controlar territórios e a cobrar por uma segurança que eles mesmos tornavam necessária. Depois vieram o transporte clandestino, o fornecimento de gás, a televisão por assinatura, a internet, a construção irregular, a cobrança sobre comerciantes e a apropriação do mercado imobiliário.

A milícia deixou de ser apenas um grupo armado. Tornou-se uma forma de governo territorial.

Quem controla a circulação das pessoas, o comércio, os serviços e a possibilidade de permanecer vivo controla também o voto. O passo seguinte foi previsível: financiar candidatos, eleger representantes, indicar servidores, interferir em contratos públicos e ocupar a administração municipal e o Legislativo. A arma passou a conviver com o título de eleitor; a extorsão, com o gabinete parlamentar; o domínio territorial, com a aparência de representação democrática.

As facções do tráfico seguiram caminho parcialmente diferente. O Comando Vermelho nasceu no sistema penitenciário fluminense no final da década de 1970. O Primeiro Comando da Capital surgiu em 1993,........

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