Regret Nothing: a fotografia de um masculinismo capturado
Fiquei um bom tempo olhando para a foto da condução coercitiva de Vitor Hugo Simonin, na 12ª DP, em 09 de março de 2026, deixando-me guiar pelo quebra-cabeça (des)montado pelo olhar da fotógrafa do jornal O Globo, Ana Branco. A lente que enquadra mais um homem acusado de violência sexual vem de um olhar feminino que documenta, para o mundo público, a captura daquele que participou da violação do corpo de uma mulher.
O enquadramento fotojornalístico escolhido parece trazer à superfície do visível, daquilo que foi registrado no clique selecionado pela autora, um emaranhado de significados. Uma mistura de sinais contraditórios e emoções indigestas que nos convoca a confrontar valores e práticas patriarcais. Uma mistura que explicita o recurso à violência de gênero, doméstica e intrafamiliar como pedagogia cotidiana e, em boa medida, socialmente autorizada. Experimentei um desconforto que não se esgota no trazer de novo à memória, pela foto-registro, a barbárie do estupro coletivo que dói em nossas mulheridades e remói em nossas almas, de novo e de novo, a cada nova visada sobre esta imagem.
A fotografia, que recorta uma ação policial em movimento, comunica desencaixes nos papéis de gênero e em suas lógicas em uso. Ela expõe as fissuras de uma moralidade heteronormativa misógina que, mesmo com o teto de vidro e o chão movediço produzidos pelas conquistas feministas, imagina poder impor uma hegemonia nostálgica: a volta a um eldorado masculino mítico, o retorno ao passado idealizado de uma terra de homens somente para homens. A imagem põe sob questionamento relações desiguais e violentas de gênero naturalizadas. Relações assentadas em formas masculinistas de monopólio da verdade e, por conseguinte, de validação do exercício de poder sobre as existências femininas em sua pluralidade.
No primeiro plano da foto tem-se a condução coercitiva de um dos acusados do estupro coletivo de uma jovem ocorrido em Copacabana. Revela-se uma imagem que reconstrói e converte em notícia, sob o recorte das lentes da fotógrafa, mais um ato criminoso que seguia pelo rumo sombrio da invisibilidade. Porém, há bem mais a ser visto, percebido e sentido do que sugere a legenda da foto que nos serve de guia: “Vitor Hugo Simonin sai da 12ª DP (Copacabana)”.
O enquadramento fotojornalístico captura um instante que ultrapassa o fato policial narrado pela legenda. A fotografia rompe o fluxo rotineiro do fato noticiado e transforma a movimentação procedimental de um indiciado sob custódia do Estado em uma pose carregada de tensões simbólicas. Seria só mais um “menino” inconsequente? Seria um “bandido” reincidente? Seria um “herói” que cumpriu a missão para sua bolha de seguidores, indo além da performance no mundo digital?
Na fotografia se confronta, sob o olhar público mediado pelo olhar da fotógrafa, uma masculinidade ostentatória com cálculo, cultivada e celebrada quando se afirma pela violência. Essa masculinidade parece querer sustentar, mesmo que já rendida, seu próprio discurso de força, altivez e supremacia diante de outras autoridades também atravessadas pelo machismo guerreiro e pelo ethos masculinista protetor: a autoridade do Estado e a autoridade moral da sociedade.
São essas mesmas autoridades que, diante da exibição do pior e do mais vil em sua versão excessiva, capturam, enquadram e expõem um masculino que nasceu cheio de regalias. Um masculino que ultrapassou os limites dos abusos tolerados e das ilegalidades privilegiadas aceitas para sujeitos de família que “deram só um mal passo”, “cometeram um deslize”, “estavam de cabeça quente”. Ou melhor, sujeitos que, do alto de sua razão de gênero, “foram provocados” a sentenciar mulheres insurretas por ousarem ser mulheres. E isso para que as demais sobreviventes aceitem que são apenas usuárias, e não proprietárias, de seus próprios corpos e de sua existência.
O estupro coletivo aparece como punição exemplar e publicitária ao feminino. É um ato que se faz acompanhar de homenagem a uma classe e de bonificação simbólica a seus integrantes. É uma tentativa de restauração moral da posse machista percebida como ameaçada ou perdida. Uma reação diante da cidadania feminina considerada ingrata. Ingrata porque supostamente foi inventada e presenteada pelo masculino que agora se sente desacatado pela equivalência em direitos.
Convido você, leitora e leitor, a voltar a olhar para a foto fazendo uso das lentes femininas do meu olhar. E por este rumo tentar perceber outros elementos revelados pelo recorte da fotógrafa Ana Branco. Daqui em diante, este percurso seguirá em fragmentos, como flashes. Fragmentos menos conclusivos e mais próximos de um movimento analítico indignado e crítico.
Uma foto, revelações variadas
Uma fotografia organiza uma hierarquia do que existe e é tomado como real, porque se tornou visível pelo registro visual. Ela explicita um acordo sobre o que deve ser visto e sobre como a ordenação do visível pode ser reconhecida como espelho de uma realidade. Os planos, seres, objetos, focos, cenários, cores e tudo mais que compõem uma imagem, reconstroem a realidade noticiada e a verdade que importa dar a conhecer: a verdade revelada por um modo de enquadrar, isto é, de classificar o mundo em que vivemos.
O enquadramento fotográfico vai além de capturar um acontecimento. Ele estrutura uma interpretação possível da realidade. A fotografia evidencia regimes de visibilidade que definem o estatuto do que pode aparecer como real. Esses regimes de visibilidade são também regimes de poder. Eles distribuem relevância, orientam a atenção e autorizam leituras da vida vivida. Funcionam como molduras que organizam a percepção sobre os eventos. Essa verdade, produzida por uma pose ou um close, é posta em confronto com outros modos culturais, políticos e econômicos de delimitar a........
