O que está acontecendo com o IBGE?
Não vamos falar, neste artigo, de disputas corporativas internas. Não vamos falar de um conjunto de funcionários de uma instituição historicamente atacada — pelos governos militares, pela agenda privatizante dos anos 1990, e que quase fechou as portas durante o governo Bolsonaro — que aprendeu a cultivar, por pura sobrevivência, uma carapaça corporativa dura e às vezes excessiva. Não vamos falar de interesses pessoais de servidores públicos que, mesmo sob o manto da neutralidade técnica, nunca deixaram de servir a interesses privados por meio de "consultorias" paralelas e lealdades silenciosas. Tampouco vamos falar dos privilégios galvanizados durante a pandemia — quando o trabalho remoto se tornou uma trincheira de poder — que hoje lutam para se perpetuar dentro da maior instituição de pesquisa e produção de dados do Brasil. Essas questões são legítimas, merecedoras de atenção e de reforma, mas são de manejo interno. Ocorreram, em formas mais ou menos análogas, em todas as grandes instituições do mundo. Não é sobre isso que precisamos conversar agora. Precisamos conversar sobre duas coisas muito mais sérias.
A última fronteira contra as fakes news
O IBGE é, no Brasil contemporâneo, a última fronteira entre a realidade medida e a percepção manejada por algoritmos. Em um tempo em que plataformas digitais monetizam o caos narrativo, em que a desinformação circula a velocidades exponencialmente superiores às da correção factual, o IBGE se impõe como uma pedra no caminho: ele mede. Mede inflação, desemprego, renda, fome, ocupação territorial, dinâmica demográfica, condições de moradia. Mede o Brasil que existe, não o Brasil que convém fingir que existe.É exatamente por isso que a fragilização do IBGE não é, para a extrema direita e para os projetos autoritários em gestação no país, uma escolha estratégica entre........
