A explosão que calou a testemunha e a emoção que quebrou o silêncio
Este artigo foi escrito cinco anos após o encerramento dos trabalhos efetuados pela Comissão da Verdade do Rio (CEV-Rio), onde trabalhei como jornalista assessora-pesquisadora. Nunca foi publicado. Serviu apenas de exercício para o mestrado que cursei na UFJF.
A ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985) implantou o medo. Com o medo veio o silêncio, o não ver. O fazer de conta que não sabe e, por fim, o esquecimento. Melhor deixar para lá. Melhor virar esta página. Melhor apagar. Porém, o que se deixa para lá, baila na alma. Retorna, incomoda. Vai e vem. Dormita, mas não se esvai. O passado não passa. O que é forçado e comprimido, uma hora transborda, porque o corpo reclama o que a mente sufoca. No relembrar, o que ficou lá onde era conveniente, – oralidade, memória e sentimentos -, se misturam entre quem conta e quem ouve. Quem conta não quer contar. Quem ouve quer o que está oculto. Nesse embate, remete-se a Ricoueur, que indaga sobre o “fazer história”. Enquanto esquecida, foi útil. Aplacou o medo e não revirou mágoas e perigos. Revelada, foi como um parto, parindo a verdade, a memória e possibilitando justiça.
“Narrativa e coisa narrada podem de novo coincidir, e as duas expressões ‘fazer a história’ e ‘fazer história’. O fazer e o contar tornaram-se o verso e o reverso de um único processo” (2010b, p. 365-366). (Ricoueur). Nesse contexto do ‘fazer’ abro espaço para o meu contar. Ele não é meu, na medida em que trata de assunto público, mas ao mesmo tempo eu me aproprio, para melhor ordenar os fatos no contar.
Depois de dois anos de busca de pistas que levassem à identificação dos autores, em coletiva de imprensa realizada em 11 de setembro de 2015, a Comissão da Verdade do Rio apresentou dossiê, reunindo documentos comprobatórios de que o atentado contra a OAB foi obra de um grupo de oficiais ligados ao Centro de Informações do Exército (CIE). A investigação da CEV-Rio indicou quatro testemunhas que caracterizaram a autoria do fato. Uma ocular, que se denominou testemunha “X”, atendendo ao pedido de sigilo de sua identidade, e que reconheceu a pessoa que levou a bomba à OAB, e três agentes vinculados à estrutura repressiva da ditadura. A partir dos depoimentos coletados foi possível afirmar que o sargento Magno Cantarino Motta, paraquedista do Exército, foi quem entregou pessoalmente a carta com o artefato que vitimou D. Lyda Monteiro. Na condição de agente da repressão vinculado ao CIE, Magno adotou o codinome de “Guarany”. Para executar a ação, Guarany subiu pelo elevador até o 4º andar do prédio da OAB, na Av. Marechal Câmara, 210, Centro do Rio, endereço em que a CEV-Rio se instalou. Segundo a testemunha ocular que dialogou com o militar momentos antes de ele entregar o envelope pardo, contendo a bomba de fabricação artesanal, o sargento vestia calça e camisa social “como os muitos rapazes que trabalhavam nos escritórios da região”. A testemunha relatou também que ele tinha cabelos encaracolados, abaixo das orelhas, e apresentava pouco mais de trinta anos. De estatura média, falava pausado e agiu com cordialidade com as pessoas que encontrou em seu trajeto. Segundo as testemunhas ouvidas pela CEV-Rio, a ação foi comandada pelo coronel Freddie Perdigão Pereira, do CIE, e a Confecção da bomba esteve a cargo do civil Hilário Corrales e do sargento Guilherme Pereira do Rosário, morto no atentado do Riocentro, no ano seguinte, em consequência da explosão da bomba que trazia no colo. O paraquedista da turma de 1964, Valdemar Martins, ao examinar o retrato falado do suspeito e uma fotografia do Riocentro, em que um homem aparece olhando para dentro do carro onde estava o corpo do sargento Rosário, afirmou, sem qualquer dúvida, que a imagem apresentada era a de Magno Cantarino Motta, sargento que servira na mesma unidade, no Rio de Janeiro, em que ele servira. Guilherme Pereira do Rosário também servira ali. Valdemar ainda confirmou que Guarany fora o autor da entrega da bomba à OAB. No mesmo sentido, o ex-delegado do DOPS-ES, Claudio Guerra, afirmou à Comissão em três oportunidades que a ordem para o atentado partira do coronel Freddie Perdigão Pereira, da sede do Serviço Nacional de Informações (SNI), no Rio de Janeiro, sendo Guarany o responsável pela entrega da bomba na OAB e o sargento Guilherme do Rosário o encarregado de sua fabricação, juntamente com o civil Hilário Corrales. A propósito, declarou: – Posso ainda afirmar, que, na mesma ocasião, o mesmo grupo (Equipe secreta de militares do cel. Perdigão, composta pelo sargento Rosário, Guarany e outros), foi responsável pelo artefato que foi colocado no gabinete de um vereador, não lembro o nome (Antônio Carlos de Carvalho – PDT) e outra na Tribuna da Imprensa. A motivação, o combate intensivo que a OAB fazia para que fossem apontados os responsáveis pelos desaparecimentos e torturas. Naquele período, a OAB teve um papel importante na defesa dos direitos humanos e restauração das liberdades democráticas. Para intimidar a entidade, o grupo que agia sob o comando do Centro de Informações do Exército, iniciou uma série de atentados, cujos alvos eram parlamentares de oposição, bancas de jornal, jornais e entidades da sociedade civil e visava responsabilizar as organizações de esquerda armada, que na oportunidade já se encontravam desmobilizadas. A OAB e o vereador Antônio Carlos, naquele momento, estavam envolvidos nas investigações acerca do desaparecimento do militante Mário Alves (PCBR), após sua prisão no DOI-CODI do 1º Exército, em janeiro de 1970. Da mesma forma, Seabra Fagundes havia se mobilizado publicamente para obter a apuração e a identificação do atentado sofrido por Dalmo Dallari, em São Paulo, para que não fossem suspensas. As apurações da CEV-Rio resultaram também na confirmação da ligação entre os atentados do dia 27 de agosto de 1980 e o caso Riocentro, em 1981, a partir da confirmação da presença e da atuação do agente Guarany em ambos os momentos. Esta articulação demonstra que os mesmos grupos estavam por trás dos trágicos episódios e confirma o envolvimento de agentes do Estado nos atos terroristas.” (Relatório – Comissão da Verdade do Rio – dezembro de 2015 – págs de 226 a 235).
Depois de dois anos de busca de pistas que levassem à identificação dos autores, em coletiva de imprensa realizada em 11 de setembro de 2015, a Comissão da Verdade do Rio apresentou dossiê, reunindo documentos comprobatórios de que o atentado contra a OAB foi obra de um grupo de oficiais ligados ao Centro de Informações do Exército (CIE). A investigação da CEV-Rio indicou quatro testemunhas que caracterizaram a autoria do fato. Uma ocular, que se denominou testemunha “X”, atendendo ao pedido de sigilo de sua identidade, e que reconheceu a pessoa que levou a bomba à OAB, e três agentes vinculados à estrutura repressiva da ditadura.
A partir dos depoimentos coletados foi possível afirmar que o sargento Magno Cantarino Motta, paraquedista do Exército, foi quem entregou pessoalmente a carta com o artefato que vitimou D. Lyda Monteiro. Na condição de agente da repressão vinculado ao CIE, Magno adotou o codinome de “Guarany”.
Para executar a ação, Guarany subiu pelo elevador até o 4º andar do prédio da OAB, na Av. Marechal Câmara, 210, Centro do Rio, endereço em que a CEV-Rio se instalou. Segundo a testemunha ocular que dialogou com o militar momentos antes de ele entregar o envelope pardo, contendo a bomba de fabricação artesanal, o sargento vestia calça e camisa social “como os muitos rapazes que trabalhavam nos escritórios da região”. A testemunha relatou também que ele tinha cabelos encaracolados, abaixo das orelhas, e apresentava pouco mais de trinta anos. De estatura média, falava pausado e agiu com cordialidade com as pessoas que encontrou em seu trajeto.
Segundo as testemunhas ouvidas pela CEV-Rio, a ação foi comandada pelo coronel Freddie Perdigão Pereira, do CIE, e a Confecção da bomba esteve a cargo do civil Hilário Corrales e do sargento Guilherme Pereira do Rosário, morto no atentado do Riocentro, no ano seguinte, em consequência da explosão da bomba que trazia no colo.
O paraquedista da turma de 1964, Valdemar Martins, ao examinar o retrato falado do suspeito e uma fotografia do Riocentro, em que um homem aparece olhando para dentro do carro onde estava o corpo do sargento Rosário, afirmou, sem qualquer dúvida, que a imagem apresentada era a de Magno Cantarino Motta, sargento que servira na mesma unidade, no Rio de Janeiro, em que ele servira. Guilherme Pereira do Rosário também servira ali. Valdemar ainda confirmou que Guarany fora o autor da entrega da bomba à OAB.
No mesmo sentido, o ex-delegado do DOPS-ES, Claudio Guerra, afirmou à Comissão em três oportunidades que a ordem para o atentado partira do coronel Freddie Perdigão Pereira, da sede do Serviço Nacional de Informações (SNI), no Rio de Janeiro, sendo Guarany o responsável pela entrega da bomba na OAB e o sargento Guilherme do Rosário o encarregado de sua fabricação, juntamente com o civil Hilário Corrales. A propósito, declarou:
– Posso ainda afirmar, que, na mesma ocasião, o mesmo grupo (Equipe secreta de militares do cel. Perdigão, composta pelo sargento Rosário, Guarany e outros), foi responsável pelo artefato que foi colocado no gabinete de um vereador, não lembro o nome (Antônio Carlos de Carvalho – PDT) e outra na Tribuna da Imprensa. A motivação, o combate intensivo que a OAB fazia para que fossem apontados os responsáveis pelos desaparecimentos e torturas.
Naquele período, a OAB teve um papel importante na defesa dos direitos humanos e restauração das liberdades democráticas. Para intimidar a entidade, o grupo que agia sob o comando do Centro de Informações do Exército, iniciou uma série de atentados, cujos alvos eram parlamentares de oposição, bancas de jornal, jornais e entidades da sociedade civil e visava responsabilizar as organizações de esquerda armada, que na........
