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Brasil, os sinos dobram por ti!

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26.08.2026

Há quarenta anos, o Brasil derrubou uma das três mais longas e sanguinárias ditaduras militares dos últimos cem anos na América do Sul. As outras duas foram a chilena e a argentina. A transição democrática foi pactuada com os ditadores, uma marca de fraqueza que persegue até hoje a democracia brasileira. Além disso, a redemocratização ocorreu em um contexto internacional de imposição global do neoliberalismo, uma arma de destruição massiva da justiça social e da democratização da sociedade e do Estado. Mas, graças aos movimentos sociais e a um sindicalismo vibrante (em que se destacou o atual presidente Lula da Silva), o Brasil soube fazer da fraqueza, força. A democracia consolidou-se e aprofundou-se com as experiências locais de democracia participativa (o orçamento participativo) que chamaram a atenção do mundo democrático. Em 2001, o Brasil tornou-se o espelho mundial da força dos movimentos sociais na busca por justiça social ao organizar o primeiro Fórum Social Mundial e, em 2002, elegia presidente o aguerrido sindicalista Lula da Silva, vindo dos confins empobrecidos do Nordeste do país, nos antípodas das elites de São Paulo que sempre governaram o Brasil.

Seguiu-se uma década gloriosa de desenvolvimento econômico, melhorias das condições de vida das classes populares (que finalmente puderam andar de avião para visitar familiares ou gozar férias, para incômodo das classes habituadas a esse privilégio de mobilidade), investimento transformador na educação pública, sobretudo universitária (outro incômodo para as classes privilegiadas que até então estavam convencidas de que não havia um racismo estrutural na sociedade brasileira e de que, por isso, não eram necessárias políticas compensatórias, ações afirmativas, sistemas de cotas). O Brasil tornou-se um dos países emergentes no Sul Global, entre as dez maiores economias do mundo e, em 2006, constituiu-se formalmente como membro fundador do BRIC, precursor do BRICS. Em suma, uma potência mundial que, além disso, parecia demonstrar que não há contradição entre desenvolvimento capitalista e desenvolvimento democrático.

Mas, tragicamente, as aparências enganam. A crise financeira de 2008 e as mudanças que se seguiram (o capital financeiro responsável pela crise foi quem ficou encarregado de resolvê-la com as consequências habituais: quem paga a crise são os de baixo, sejam eles as classes sociais ou os países), combinadas com a necessidade de os EUA voltarem a cuidar do seu quintal latino-americano depois do desastre no Iraque e alarmados com a crescente influência da China no subcontinente, desestabilizaram o capitalismo brasileiro e a democracia brasileira principalmente por meio da Operação Lava Jato. Afinal, a força também era fraqueza. Ao golpe brando de 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff seguiu-se a fabricação da inabilitação do mais forte candidato às eleições de 2018, Lula da Silva, a sua prisão por 580 dias e a eleição de um obscuro e medíocre radical de extrema-direita.

Mas a força da democracia não estava toda esgotada. Desta vez, da fraqueza se fez a força. Perante a pressão da denúncia dos atropelos legais por parte dos brasileiros e dos democratas do mundo, o mesmo sistema judicial que fabricara a inabilitação de Lula da Silva e a sua prisão resgatou-se, de um ponto de vista democrático, repondo a legalidade e permitindo que Lula da Silva voltasse a disputar e a vencer as eleições presidenciais, o que ocorreu em 2022.

O presidente Lula da Silva voltou, mas não voltou a pujança democrática do Brasil e a riqueza e a diversidade dos movimentos sociais. Nem sequer voltou a alegria afro-católica-pagã da rebeldia que desarma a ortodoxia bem-pensante, dá esperança na luta em condições de maior adversidade e se disfarça de reverência à flor da pele para esconder melhor os dentes cerrados do inconformismo. Os resistentes rappers continuaram a revoltar-se, mas cada vez mais sozinhos.

É que, entretanto, a sociedade brasileira sofrera uma recolonização de tipo novo assente em dois extrativismos: o extrativismo da crença e o extrativismo da deliberação. Como no domínio de outras matérias-primas, o extrativismo é a troca desigual, a expropriação, a violência física, psíquica ou simbólica para extrair recursos naturais ou humanos. A novidade desta recolonização é que ela se apresenta como descolonização exaltante em relação ao velho mundo da velha religião e da velha política. É uma expropriação que se disfarça de reapropriação, uma servidão que se disfarça de autonomia, uma superobjetivação das consciências que se disfarça de exaltante supersubjetivação. Em suma, despossessão como nova forma de empoderamento.

A intensidade da recolonização entretanto realizada ficou manifesta no modo como a extrema-direita reagiu aos resultados eleitorais. Não tendo conseguido apropriar-se pacificamente das eleições, reagiu violentamente, vandalizando os edifícios da Praça dos Três Poderes de Brasília, brilhantemente desenhada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer para celebrar a democracia. Em 8 de janeiro de 2023, o mundo assistiu pasmado e incrédulo às imagens chocantes de vandalismo no coração das instituições do poder político. A força da democracia brasileira revelava que tinha os pés de barro.

Mas, de novo, e desta vez à beira do abismo, a democracia brasileira reuniu os estilhaços e recompôs-se. Mais uma vez da fraqueza se fez força, mas a força já não era a força do período anterior. Não era a força do florescimento, era a força da sobrevivência porque, entretanto, as operações de extrativismo tinham avançado muito.

O extrativismo da crença

Para não haver equívocos, começo por reiterar todo o meu respeito pelos sentimentos e crenças religiosas das pessoas, afirmando, ao mesmo tempo, que sou totalmente contra qualquer uso político da religião que não seja o de seguir a prática do Nazareno: lutar neste mundo pelo bem-estar e dignidade das classes populares, empobrecidas, excluídas, vítimas de discriminação racial e sexual, contra os vendilhões do templo, fabricantes da desigualdade e da discriminação, e correr os riscos que isso envolve nas sociedades capitalistas, colonialistas e patriarcais em que vivemos.

O extrativismo da crença suga as energias religiosas dos degradados da terra para criticar e transformar este mundo injusto e transfere-as para o zelo em garantir que a justiça da melhoria de vida seja salvaguardada no outro mundo, o mundo da salvação eterna. Os transportadores dessas energias são os pastores, sobretudo os evangélicos da denominação neopentecostal, que, com a proliferação das suas igrejas e os milhões de seguidores nas redes sociais e nos seus vídeos diários, garantem o melhor rendimento dessas energias no outro mundo.

A energia anímica gasta em transes dentro das igrejas não sai à rua. Pelo contrário, o crente sai à rua relaxado, conformado com este mundo e contente com a prosperidade que está a acumular no outro mundo. Que os transportadores sejam cada vez mais prósperos neste mundo é a justa recompensa para o esforço de transportar para tão longe as energias do rebanho. O inconformismo do crente passa a ter um radar estreito: mudar a família e convencer os vizinhos.

O extrativismo da deliberação

Este extrativismo consiste em viciar as pessoas em subcontratar a agenciadores acreditados e facilmente disponíveis o pensamento, a informação e as emoções necessárias para deliberar. Fica, assim, o tempo livre para procurar trabalho, ajudar a alimentar a família e distrair-se com a televisão, as redes sociais e o futebol e, até há pouco, o carnaval (o extrativismo da crença está a eliminar o carnaval).

O extrativismo da deliberação é particularmente intenso quando articulado com o extrativismo da crença. É que, se a política é importante para gerir este mundo, quem o gere melhor é quem mais se assemelhar Àquele que gere o Outro Mundo, o mundo da salvação eterna. Ora, se Deus não é democrático, por que tem de o ser quem gere este mundo? O importante é que seja um dos nossos, isto é, da confiança dos nossos agenciadores da energia deliberativa e dos nossos transportadores da energia religiosa para um lugar seguro no mundo da salvação. Amanhã, se os agenciadores e transportadores assim o quiserem, pode ser a inteligência artificial a escolher candidatos em quem votar e a deles fazer governantes. Se garantir que o eleito é dos nossos, o crente viciado dorme descansado por ter cumprido o seu dever e ter ganho alguns pontos na vida eterna.

O........

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