Caso Master mostra que o velho patrimonialismo brasileiro está mais vivo do que nunca
Raymundo Faoro, além de ter engrandecido a história da Ordem dos Advogados do Brasil ao cobrar do ditador Ernesto Geisel a restituição do habeas corpus para presos políticos, foi o sociólogo que melhor compreendeu o patrimonialismo nacional e seus duradouros efeitos sociais, como atesta seu seminal Os Donos do Poder. Já a Gilberto Freyre coube, especialmente em Casa-Grande & Senzala, decifrar as engrenagens patriarcais — e escravistas — que moldaram os ambientes domésticos brasileiros.
Seria fascinante saber o que ambos diriam sobre o Brasil de hoje, enredado em um escândalo financeiro, político e judicial que, em larga medida, chancela a atualidade de suas obras. A nação de desenho democrático instituída pela Constituição de 1988 nada mais é, na prática, do que uma versão rejuvenescida daquele país desvendado por Faoro e Freyre, em que interesses privados rotineiramente mascaram-se de interesse público e a este se sobrepõem.
O Caso Master é o retrato fiel de um Brasil cujas rédeas têm donos — em essência, a mesma elite dirigente apontada por Faoro há quase um século. O material extraído do celular de Daniel Vorcaro impõe investigações rigorosas. Mais do que isso, o........
