Joel Rocha: liderar aquilo que ninguém vê
Um dos maiores erros que cometemos quando avaliamos um treinador é fazê-lo apenas a partir do momento em que a bola começa a rolar. Observamos as substituições, questionamos as decisões, analisamos os sistemas utilizados, discutimos os tempos técnicos e, inevitavelmente, julgamos os resultados. Procuramos perceber aquilo que fez bem, apontamos aquilo que fez mal e, no final, transformamos quarenta minutos de jogo numa espécie de exame à competência de quem lidera. Como se tudo aquilo que define um treinador e, sobretudo, um líder pudesse ser avaliado apenas durante o tempo em que o cronómetro está a contar...
Quase nunca vemos aquilo que verdadeiramente sustenta uma equipa: as conversas que ninguém ouviu, a confiança que demorou meses a construir, a exigência diária, os conflitos que foi necessário resolver, a capacidade de dizer não quando seria mais fácil dizer sim, a coragem de assumir um erro perante o grupo, a forma como se protege alguém num momento difícil e, talvez acima de tudo, a forma como se trata quem joga e quem, apesar de trabalhar todos os dias, sabe que provavelmente ficará sentado no banco a maior parte do tempo. É aí que um treinador deixa de ser apenas treinador e passa a ser líder – se tiver competência e traços de personalidade para tal, claro.
Liderar não começa quando o árbitro apita. Começa muito antes no treino, no balneário, no gabinete, uma conversa individual, num silêncio, numa decisão impopular, na coerência entre aquilo que se exige aos outros e aquilo que se pratica todos os dias.
É nesse espaço invisível, muito antes dos quarenta minutos que todos vemos, que se constrói grande parte daquilo a que, no final, chamamos resultado. E talvez seja também aí que melhor se descodifica Joel Rocha.
Podia começar este artigo pelos títulos. Pelo Fundão. Pelo Benfica ou pelo SC Braga. Pelo percurso de um treinador que venceu em contextos muito diferentes e que se tornou o primeiro a conquistar a Taça de Portugal de futsal por três clubes diferentes. Tudo isso ajuda a explicar o treinador, mas há que perceber o líder.
Quando falei com o Joel sobre este artigo, não comecei por lhe perguntar por sistemas, modelos de jogo ou títulos até porque conheço muito bem esse lado dele. Fiz-lhe uma pergunta simples:
− O que é necessário para ganhar para além dos quarenta minutos que todos vemos?
A resposta acabou por resumir grande parte daquilo que procurava:
− Ganhar depende de muito mais do que aquilo que acontece durante os 40 minutos de competição. Depende, sobretudo, de tudo aquilo que se constrói quando ninguém está a ver.
Depois explicou-me o que existe nesse espaço invisível. A organização do dia a dia. Os bons hábitos. As normas. Os procedimentos. O saber ser e estar. O saber treinar. E, acima de tudo, as relações e as sinergias entre as pessoas.
É curioso. No final de um jogo procuramos quase sempre explicar o resultado através daquilo que aconteceu durante os quarenta minutos – acontece no futsal e em outras modalidades. Talvez uma parte importante da explicação esteja nas centenas de horas anteriores. Na pontualidade de um treino. Na intensidade de um exercício. Na reação a uma correção. Na conversa com quem perdeu espaço. Na exigência depois de uma vitória. Na forma como se resolve um conflito antes que ele se transforme num problema. Pequenas coisas, repetidas todos os dias. Quase todas invisíveis. Até ao momento em que deixam de o ser porque uma equipa não começa a ganhar quando entra no pavilhão — começa muito antes.
Joel Rocha treinou realidades profundamente diferentes. Mudaram os clubes. Mudaram os jogadores. Mudaram os contextos e os recursos. Mudaram as expectativas. Mudou a pressão. Perguntei-lhe, então, o que nunca tinha mudado na sua forma de liderar. A resposta foi........
