Inventário do Eclipse: O perfume, pela escritora Valentina Silva Ferreira
A dúvida começou quando deixou de pôr perfume antes de ir para a cama. O ritual sagrado transformado em esquecimento; o líquido âmbar praticamente no mesmo lugar durante meses e meses. Ao mesmo tempo, outros pormenores foram sendo substituídos pelo descaso: deixou de lhe descascar o ovo cozido, de procurar o beijo de manhã e de insistir no encontro mensal a dois. Ele, ao contrário dela, dona de todos esses avanços, nem percebeu a diferença, e foi isso que a magoou mais, metamorfoseando a dúvida em certeza.
As mensagens trocadas reduziram a uma por dia. Deixou de mandar smiles amorosos e áudios a dizer que se sentia excitada. As séries na Netflix passaram a ser vistas em contas diferentes e já não havia músicas em comum nem piadas privadas que os pusessem a rir a meio de um encontro familiar. Ninguém deu por isso: nem ele, nem os filhos, nem os irmãos e cunhados, nem sequer o cão, sempre tão atento a todos os sinais. Apenas ela percebeu que já viviam dentro da sombra. Para os outros, de forma silenciosa; para ela, aos gritos, aos empurrões, aos espasmos, o rosto endurecido pela exaustão, uma vontade imensa de fazer as malas........
