E depois da liberdade?
Quando, às 22h55 do dia 24 de abril de 1974, soou, na antena dos Emissores Associados de Lisboa, “E Depois do Adeus”, pela voz de Paulo de Carvalho, a liberdade de imprensa era apenas uma miragem. Não havia jornalistas sem amarras nem meios de comunicação livres da vistoria do “lápis azul”. 50 anos depois, muito mudou, mas o que ainda falta cumprir?
Durante 48 anos, Portugal viveu no obscurantismo, à espera do “dia inicial inteiro e limpo”, como tão inspiradamente Sophia de Mello Breyner Andresen viria a definir. Numa época sem esperança, quem diria que seria, afinal, uma canção de amor a senha para derrubar uma das mais longas ditaduras da Europa?
A luta pela liberdade de imprensa encontrou o fôlego crucial com a Revolução dos Cravos, mas, durante o Estado Novo, foram muitos os que tentaram fazer com que a esperança não esmorecesse. Existiam várias publicações periódicas e estações de rádio, mas imperava uma forte censura da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) e da Comissão de Censura. A Radiotelevisão Portuguesa (RTP), agora denominada Rádio e Televisão de Portugal, começou a ter emissões regulares em 1957, mas era um meio de comunicação controlado pelo Estado, com programas de propaganda, como “Conversas em Família”, apresentado por Marcello Caetano, presidente do Conselho de Ministros.
Ser jornalista era, por isso, um desafio árduo, sobretudo para quem era mulher: havia salas separadas nas redações para homens e mulheres, e as pouquíssimas que conseguiam lá chegar viam-se confinadas a temas de Sociedade, às páginas culturais ou a suplementos juvenis. Ser jornalista não era uma condição habitual para uma mulher, o que se traduzia numa luta dupla: contra a censura e contra o preconceito das próprias redações masculinas.
De lá para cá, o panorama mediático em Portugal mudou radicalmente. Hoje, divide-se entre o digital (meio emergente nas últimas décadas, que rapidamente ganhou vários públicos), a rádio (que sobrevive e se adapta de forma camaleónica aos novos tempos), a imprensa (embora registando um declínio nos últimos anos) e a televisão (reforçada com o advento dos canais privados, nos anos de 1990).
A situação também mudou para as repórteres. Num grande inquérito aos jornalistas, realizado pelo ISCTE para o Congresso dos Jornalistas de 2017, indicou que 48,2% dos jornalistas são mulheres. Contudo, trabalham mais horas, mas ganham e chefiam menos, o que nos mostra que ainda há um longo caminho a percorrer para que a igualdade se concretize na sua plenitude.
Nas últimas décadas, assistimos a uma proliferação de vozes e meios no espaço público, contribuindo para uma maior diversificação. Foram muitos os momentos em que o jornalismo mostrou o seu papel enquanto baluarte da democracia, seja nas notícias diárias de temas locais ou internacionais, seja em investigações de grande impacto.
Neste ecossistema comunicacional, as agências de comunicação desempenham também uma função relevante, posicionando-se como fontes de informação credíveis, numa ponte importante com as organizações. Paralelamente, é também patente o perigoso crescimento da desinformação, que mina a confiança do público nas instituições e, por vezes, no próprio jornalismo. A verdade fica em causa e, consequentemente, também a democracia.
52 anos depois do 25 de abril de 1974, a liberdade continua a ser um valor precioso, mas sempre frágil e permeável — difícil de conquistar e que pode ser perdido num ápice. A comunicação é um dos seus principais pilares e é essencial promover a liberdade de imprensa (sempre com rigor e isenção), dando espaço a várias vozes sem esquecer o contraditório. Para que nunca tenhamos de dizer adeus à liberdade.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
