Há 453 milhões de razões para acreditar na soberania digital europeia. Editorial de Rui Tavares Guedes
No atual estado do mundo, convém ter noção das forças e das fraquezas da Europa em relação aos seus mais poderosos competidores, especialmente numa altura em que o poderoso aliado ameaça, a qualquer momento, transformar-se em adversário. E se a Europa não possui a força tecnológica dos EUA e da China, incapaz, nas últimas décadas, de criar e desenvolver empresas digitais verdadeiramente globais, também é verdade que continua a ter um poder que, se for bem usado, pode ameaçar os dois blocos hegemónicos: a grandeza e o valor do seu imenso mercado de consumidores.
Todos sabemos que as empresas tecnológicas americanas são enormes, poderosas e dominadas por alguns dos homens mais ricos do mundo. Mas passariam a ser menos gigantes se perdessem o acesso aos consumidores europeus. Com uma particularidade especial: estes nunca poderiam ser substituídos pelo imenso mercado chinês, onde Pequim impõe as suas regras.
Os 453 milhões de cidadãos da União Europeia têm, na luta pelo poder digital, uma força comparável, salvo as devidas proporções e consequências, à da indústria militar dos EUA em matéria de Defesa. Se é verdade que a Europa ainda receia não estar em condições de enfrentar o poderio militar russo, num conflito convencional no continente, também tem de fazer ver aos EUA que o seu mercado de consumidores é vital para a tecnologia americana, numa disputa com a China.
A defesa da soberania digital europeia é, por isso, uma das batalhas mais importantes a que vamos assistir nos próximos tempos. E é absolutamente decisiva para o futuro do espaço europeu e, acima de tudo, para os valores que têm unido tantas nações, em paz, com respeito pela democracia e os direitos humanos.
Por mais progressos maravilhosos que tenham alcançado, a um ritmo cada vez mais vertiginoso e transformador para as sociedades, as grandes tecnológicas não fornecem apenas serviços para facilitar as nossas vidas, o nosso trabalho ou o modo como nos relacionamos uns com os outros. Através dos seus algoritmos, nas redes sociais, mas também nos motores de busca e, cada vez mais, nas muitas ferramentas de Inteligência Artificial, elas estão a moldar a nossa mente e a condicionar muitas das nossas decisões – desde as mais insignificantes até àquelas que impactam no futuro das nações. Seja com o nosso consentimento inocente ou com o nosso desconhecimento, temos-lhes entregado os nossos dados, quase sem pestanejar nem estremecer. E deixamos que esses algoritmos decidam, com base naquilo que mais nos prende a atenção, o que devemos ler, ver e ouvir. Mesmo que tudo isso seja feito ao arrepio das regras mais básicas, promovendo a manipulação e a mentira, sem que existam quaisquer consequências para quem disso se aproveita e lucra, de forma milionária.
No seu todo, os consumidores europeus são o segundo maior mercado para empresas como a Meta (dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp) e a Google (dona também do YouTube), logo a seguir aos EUA. No último ano, a Europa representou uma receita média de cinco mil milhões de dólares por mês para a empresa de Mark Zuckerberg, enquanto a Google faturou cerca do dobro. Em conjunto com a Amazon, as três tecnológicas americanas são completamente dominadoras do mercado total de publicidade na Europa, beneficiando do facto de, segundo os estudos mais recentes, cerca de 90% dos consumidores europeus estarem habituados a fazer compras online de forma regular.
Esse imenso domínio não pode permitir-lhes, no entanto, que queiram impor as suas leis e regras no espaço europeu. Pior: que usem o imenso mercado de 453 milhões de pessoas como uma espécie de colónia, sem respeitarem os regulamentos locais. É tempo, por isso, de a Europa fazer valer a sua força e avançar, depressa, para a sua soberania digital, a única forma de proteger os seus cidadãos das ameaças externas. Em breve, a Comissão Europeia vai apresentar o pacote para procurar cortar com a nossa dependência das grandes tecnológicas, com nova legislação sobre chips, Inteligência Artificial e o desenvolvimento de um serviço de nuvem que impeça os nossos dados ficarem aprisionados em Silicon Valley. Não vai ser, de certo, uma tarefa fácil. Mas é necessária e, por isso, inevitável – com o poder de 453 milhões de pessoas.
