Ciência ferida, educação perdida
Slogans curtos, teorias da conspiração, uma máquina de desinformação e um pseudo-messias que encarna a revolta contra o alegado dogma da ciência: eis a receita para atacar a ciência no espaço mediático. Não deixa de ser irónico que, num mundo construído pela ciência, seja hoje tão fácil manipular a opinião pública contra a própria ciência!
A guerra à ciência tem um efeito secundário mais grave – a falência da capacidade de educar. Uma sociedade que aceita que opinar sem fundamento tenha o mesmo valor que estudar está a destruir os seus próprios alicerces. Está a destruir a ideia de que o conhecimento exige sentido crítico, rigor, prova e debate racional e aberto – justamente os mesmos fundamentos que estruturam a educação. É neste ponto que a guerra contra a ciência se transforma numa guerra contra a educação.
A essência das escolas e das universidades é formar cidadãos curiosos, com pensamento independente e rigoroso, dotados de espírito crítico, capazes de distinguir o conhecimento das ilusões e reconhecer o enviesamento conveniente ou a mentira. Enfrentamos o risco de nos tornarmos uma sociedade que substitui o método científico – um dos feitos mais notáveis da humanidade – pela popularidade das opiniões. Uma sociedade que valoriza a mentira acima do discurso fundamentado. Uma sociedade em que quem fala mais alto tem razão.
A guerra contra a ciência e a educação não é politicamente neutra. Pelo contrário, serve uma estratégia de acesso ao poder. Uma sociedade menos crítica é mais fácil de manipular. A ausência de ferramentas intelectuais torna a sociedade permeável à falsidade, à conspiração e à invenção de inimigos. São destes medos que nasce uma sensação de insegurança desprovida de adesão à realidade. Estão, assim, criadas as condições perfeitas para projetos extremistas e autoritários que oferecem a ilusão de segurança.
Importa, porém, reconhecer que a defesa da ciência também exige autocrítica. As pressões de produtividade e de financiamento podem favorecer caminhos contrários ao rigor e à relevância social. As universidades têm de avaliar continuamente a sua independência e garantir que servem a sociedade com responsabilidade. Investigar não basta. É crítico que as universidades se abram à sociedade, que os investigadores saiam dos seus gabinetes e mostrem como a ciência impacta a vida das pessoas.
O sistema académico não é perfeito. Tem fragilidades e desafios. Mas o reconhecimento e o debate dessas limitações não nos podem afastar da defesa da ciência. A ciência não tem de agradar ao gosto popular. O seu objetivo é a busca do conhecimento. Um pilar fundamental da nossa civilização. A ciência é o coração da educação. Uma sociedade que desvaloriza a ciência, desvaloriza a educação e acaba, inevitavelmente, por ser liderada por quem não tem de responder pelo pouco (ou nenhum) valor das suas ideias.
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