Tudo o que não queremos no Natal é solidão
Ah, o Natal! Aquela época do ano cheia de afetos, proximidade, família e fatias doiradas, com cheiro a lareira, crianças em correria, uma gloriosa árvore decorada com os enfeites mais cintilantes e dez metros quadrados de presentes em redor – lamento advertir que as semelhanças entre este Natal dos filmes e a realidade será uma grande coincidência, disfarçada em esforço pelo barulho das luzes. Muitas vezes é uma questão de expetativas: sofre-se de picos de stress agudo no trânsito de dezembro; de intensa ansiedade financeira face à pressão de consumo ofertante e a impossibilidade do milagre da multiplicação dos presentes (ou dos euros); tenta-se a perfeição, só para a noite de consoada iluminar a nossa síndrome de impostor da quadra; e com o bacalhau servem-se batatas cozidas e desencontros familiares. Outras vezes, não há expetativas, consumidas pela depressão antecipatória, pelas ausências, pela mesa modesta. E noutras, somos só nós e os nossos fantasmas dos Natais passados, presentes e futuros, solitários – rodeados de gente ou sozinhos. Nestes tempos de “epidemia de solidão”, classificação da OMS, o Natal acentua um problema dramático de saúde social, que impacta profundamente na nossa saúde mental: a desconexão. Os Christmas Blues são temporários, o trânsito acalma, entra o novo ano mas a solidão, o isolamento social e a desconexão perduram. Como ninguém pediu ao Pai Natal as fórmulas de conexão, o brinde (ou a fava) deste bolo-rei é claro: como tirar o nariz dos ecrãs de uns, fazer outros sair da sua cabeça e/ou de casa, consolidar a empatia........
