Estamos todos cansados e não é por acaso. Crónica de Margarida Davim
Há uma fila para pagar. Mas não me aproximo das caixas automáticas, vazias àquela hora, evitadas por todos os que vivem no bairro e aproveitam para dar dois dedos de conversa com os operadores enquanto as compras rolam pelo tapete. A senhora que está a atender trabalha ali há muitos anos, conhece quem conta nas mãos as moedas enquanto olha com ansiedade para a soma registada pela máquina, quem se atrapalha com as mãos trémulas pela idade a fazer os trocos, quem tenta gerir as compras e os filhos pequenos ao mesmo tempo que fala ao telefone. Sei de tudo isso e de como ela, e vários outros que aqui trabalham, se tornam figuras reconhecidas com quem se fala de tudo e de nada. Mas tenho quase a certeza de que a senhora que estava à minha frente a ser atendida não a conhecia particularmente. E talvez isso torne ainda mais incrível o que lhe disse. “Como está?”, perguntou a operadora, com um sorriso, fazendo deslizar os códigos de barras pela máquina. Sem grande hesitação, a mulher respondeu: “Muito cansada. Psicologicamente muito cansada.”
Ainda não tinha reparado nela, ocupada que estava a descarregar o carrinho sobre o tapete rolante. Ergui os olhos, procurando a dona desta resposta desabrida e honesta, inesperada o suficiente para provocar uma pausa. A operadora parou também por instantes o que estava a fazer. Apenas um ou dois segundos. Olhou-a. E, sem vestígio de condenação, respondeu com bondade e empatia. “Pois. Isto está muito difícil.” A outra tinha já........
