menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

É preciso força e fôlego para evitar este naufrágio. Crónica de Margarida Davim

12 122
20.02.2026

Chove. Não é já bem chuva, na verdade. É um manto contínuo de água que desliza sobre a cidade. Como se o ar se tivesse tornado líquido. As caldeiras das árvores são pequenos lagos, onde as beatas parecem peixes. Aqui e ali, há novas manchas de verde, musgo irrompendo como algas. Por todo o País, há imagens de casas inundadas, estradas que colapsam, falésias que se esboroam. É como se Portugal estivesse a desfazer-se, diluindo-se numa massa instável e lamacenta. Mas é para outro naufrágio que vou, enquanto atravesso a cidade para chegar a uma escola básica de Lisboa, onde me espera um auditório com cerca de 100 alunos, entre os 13 e os 15 anos.

Digo naufrágio, porque o que vejo nas escolas é sempre o mesmo. Professores remando contra a maré, empurrados para o chão pelos ventos da instabilidade laboral, esmagados pelas ondas de burocracia, tentando equilibrar-se entre a tarefa difícil de ensinar alunos cada vez mais distraídos pela tecnologia e uma sensação de cansaço permanente. A professora que me recebe já passou dos 50 anos e dá aulas a 11 turmas, divididas entre duas escolas do mesmo agrupamento. Passa os dias a subir e a descer uma rua, para trabalhar num e noutro sítio. E acumula a disciplina de História com a de Cidadania. “E as grelhas! As grelhas que nos estão sempre a pedir para preencher”, comenta outro professor, mais ou menos da mesma idade, com ar de quem pede ajuda, enquanto esperamos que os miúdos ocupem os seus lugares. “Quando for falar na televisão, fale disto”, pede um professor bem mais novo, que se queixa de acumular dez turmas de Geografia e vai pedindo aos rapazes que se sentaram na fila da frente para estarem em silêncio.

A custo, a sala cheia sossega-se. E eu dou por mim a falar de fascismo e comunicação a um grupo de adolescentes, que a muito custo seguem ou fingem seguir o que lhes digo. Uma ou outra vez, vejo-os (sobretudo os rapazes) a trocar palavras e risos em surdina. Mas quando lhes peço para partilharem as ideias com todos, calam-se, corados. Mais ousado, um deles pergunta-me se eu acho que eram precisos “três Salazares”. Devolvo-lhe a pergunta e, enquanto pensamos alto em conjunto, ele acaba por perceber que talvez o regresso de um ditador em triplo não seja exatamente a ideia de futuro que mais o empolga. Há outro rapaz que pergunta – e a pergunta parece-me honesta, não provocatória – se não seria bom ter alguém a decidir por nós se fosse “para o nosso bem”. Desmontamos a ideia juntos e ele acaba a concluir que não estaria disponível para abdicar da sua liberdade em troca da promessa de alguém, sobretudo depois de eu lhe explicar como a política – toda ela – se joga na distribuição de poder e em como o poder dos muitos que existe na democracia, mesmo com todas as suas fragilidades, fica esmagado por um punhado de poucos, que defendem apenas os próprios interesses, em qualquer ditadura. Há um terceiro rapaz que pergunta se o voto deve ser para todos aos 18 anos ou apenas para quem tem capacidades para decidir.

A razão pela qual nenhuma das perguntas me apanhou de surpresa é que todas elas fazem parte de estudos e inquéritos sobre como pensam os jovens (sobretudo os rapazes) em vários pontos do mundo ocidental. Esta é uma novidade que sabe a ranço. Mas não é uma mudança que deve ser ignorada.

Talvez o problema destas gerações criadas nas redes sociais com a IA não seja, afinal, a credulidade. Talvez seja mesmo a ideia de que se deve duvidar de tudo. Estamos a criar gente que navega entre as proclamações convictas de demagogos que tentam enganá- -la e a ideia de que tudo é relativo e potencialmente falso

Quando eu estava na escola, qualquer uma destas perguntas pareceria impensável. Parecia impossível pensar que um jovem adolescente não prezasse a liberdade ou estivesse disponível para aceitar que o voto fosse um privilégio só ao alcance de quem cumprisse determinados critérios. Isso, achávamos nós, eram ideias muito antigas, daquelas guardadas em baús, cheias de mofo, evocadas apenas como a memória de um tempo em que se pensavam coisas impensáveis.

Quando um deles me perguntou sobre a censura, achei que era interessante contar a história das cheias de 1967, quando os mortos eram uma coisa que se apagava das notícias. Um dos miúdos perguntou-me como havia imagens. E eu comecei a responder antes de perceber que ele achava que no final dos anos 1960 não havia maneira de filmar nem fotografar nada. “Em 1969, o Homem chegou à Lua”, disse, em tom de brincadeira, para ilustrar a que ponto a tecnologia estava avançada nessa altura.

Foi só nesse momento que a reação deles me surpreendeu. A minha frase lançou um burburinho na sala. Um explicou em voz alta porquê: “O Homem não foi à Lua.” Perante o meu ar de espanto, ergueu-se um coro de rapazes (todos rapazes) que garantiam que nunca um ser humano pisou a face lunar. Eu, tão cheia de respostas, tão pronta a desmontar ideias retorcidas, encaminhando-os pelos seus pensamentos, fiquei estática por segundos. Nada me tinha preparado para aquilo.

Cresci a ouvir relatos sobre gente antiga e pouco culta que nas aldeias achava que o Homem nunca podia ter ido à Lua. Eram histórias contadas em tom de riso, uma chacota sobre a ignorância de quem mal sabia juntar letras. Nunca pensei encontrar, no centro de Lisboa, no século XXI, rapazes com menos de 16 anos a duvidar de um feito que faz parte das coisas que eu sei do mundo desde pequena.

Eu, que ia com discursos preparados sobre desinformação e manipulação, que lhes falei sobre como deviam duvidar de tudo, aprender a questionar, usar ferramentas de pensamento crítico, dei por mim a ter de garantir que era verdade a ida à Lua, atabalhoadamente.

Talvez o problema destas gerações criadas nas redes sociais com a Inteligência Artificial não seja, afinal, a credulidade. Talvez seja mesmo a ideia de que se deve duvidar de tudo. Estamos a criar gente que navega entre as proclamações convictas de demagogos que tentam enganá-la e a ideia de que tudo é relativo e potencialmente falso. Que bússola poderemos dar-lhe? Que azimute pode salvá-la deste naufrágio que pode levar-nos a todos ao fundo?

Uma coisa me parece certa: é tempo de remarmos. É tempo de lançarmos mãos a estes náufragos, antes que eles se afoguem nas certezas da ignorância. Se formos muitos, talvez consigamos ser suficientes para manter a flutuar esta jangada de pedra. Mas será preciso força e fôlego.


© Visão