Primeiro, roubam a causa. Depois, vendem a ditadura
As acampadas de Lisboa e do Porto tornaram-se o palco de um conflito que já ultrapassa a habitação e o custo de vida. As cargas policiais, os confrontos e as denúncias de infiltração trouxeram para o centro do debate uma escalada que ameaça deixar para trás a própria razão dos protestos.
Quando a discussão passa das rendas incomportáveis para os bastões, das respostas políticas para as detenções, alguma coisa está a falhar gravemente.
A situação ameaça escapar ao controlo de quem convocou os protestos e à capacidade de resposta de quem governa. Uns procuram transformar a indignação num projeto revolucionário; outros podem aproveitar cada confronto para alimentar o medo e reclamar mais repressão. Pelo meio ficam as pessoas que saíram à rua porque trabalham e não conseguem pagar uma casa — e que arriscam ver a sua causa apropriada por quem tem outros objetivos.
É preciso dizê-lo claramente: uma reivindicação legítima não torna aceitável qualquer comportamento praticado em seu nome. Da mesma forma, a existência de confrontos não concede ao Estado uma autorização ilimitada para usar a força. A violência exige apuramento de responsabilidades, seja quem for o seu autor. E um Governo que reduz um conflito social a um problema de ordem pública demonstra que perdeu capacidade para lhe dar uma resposta política.
O perigo está nesta escalada: a contestação alimenta a repressão, a repressão agrava a revolta e o medo conquista quem observa. A habitação desaparece das primeiras páginas. O confronto ocupa todo o espaço. E a promessa de uma “mão forte” começa a parecer uma solução a quem já só deseja que alguém ponha fim à confusão.
Não podemos, contudo, decretar que as acampadas deixaram de ser sobre habitação. As reivindicações continuam expressas e há pessoas que nelas participam precisamente porque precisam de uma casa e de condições para viver. Apagar essa realidade seria fazer o trabalho de quem pretende descredibilizar todo o protesto. O que devemos perguntar é quem procura apropriar-se dessa indignação e para onde a quer conduzir.
À esquerda, essa tentativa nem sempre é dissimulada. O Coletivo Comunista Revolucionário apresenta as acampadas como parte de uma mobilização mais ampla e defende a construção de uma organização comunista revolucionária. A posição é assumida e permite uma crítica igualmente clara: quem participa numa luta por rendas comportáveis não está, por esse facto, a subscrever um projeto revolucionário. Uma causa social não confere a nenhuma organização o direito de falar por todos os que nela participam.
A vontade de resolver um problema concreto não pode ser confundida com uma autorização para transformar o descontentamento........
