I am the king of the world
Há líderes que governam. Há outros que encenam. E depois há aqueles que parecem acreditar, genuinamente, que o mundo é um tabuleiro e que eles são a única peça que importa.
“Sou o rei do mundo” — não é uma frase dita, mas é o eco constante de uma postura que transforma a política internacional num espetáculo, onde ameaças substituem a diplomacia e a guerra banaliza-se como se fosse apenas mais um episódio de entretenimento global. A ideia implícita de “sou o rei do mundo” não é apenas uma postura retórica. É uma lógica de atuação na qual as alianças são descartáveis, a diplomacia é fraqueza e a guerra surge como instrumento legítimo de afirmação pessoal e política.
O problema não está apenas na retórica. Está na geopolítica que essa retórica ativa.
Há muito que o sistema internacional deixou de ser unipolar.
A ascensão da China, a resiliência da Rússia, o reposicionamento de potências regionais como o Irão e a Turquia criaram um equilíbrio instável — uma espécie de multipolaridade imperfeita.
Agir como se ainda estivéssemos num mundo onde uma potência pode “testar limites” sem consequências é profundamente perigoso.
Quando se fala em atacar territórios “por diversão”, como fez Trump há dias, em relação à Ilha de Kharg, revela-se algo profundamente inquietante: uma desconexão total com a realidade humana da guerra.
O ataque ao Irão demonstrou que não se trata dum confronto entre os EUA com um ator isolado, mas sim com o nó central numa rede de alianças informais, milícias e influências que atravessam o Iraque, a Síria, o Iémen e o Líbano
Passadas três semanas, não restam dúvidas de que qualquer ação direta desencadeia respostas indiretas. E essas respostas não são lineares, nem controláveis.
A falta de conhecimento geopolítico e histórico levou a que não se tivesse em conta o caráter instável, volátil do Médio Oriente, onde qualquer conflito está interligado com outros.
Nesta zona do globo, qualquer conflito desencadeia rivalidades sectárias ( entre sunitas e xiitas), disputas geopolíticas (Irão vs Arábia Saudita / Israel) e, mais impactantes a nível global, os interesses sobre as rotas estratégicas, o poderio militar e, no topo de tudo o fornecimento de energia.
A guerra não é um jogo. Não é um gesto simbólico. Não é uma demonstração de força para consumo mediático.
A guerra é dor. É o silêncio depois da explosão. É o choro de uma criança que já não chama por ninguém. É uma mãe a segurar um corpo pequeno, demasiado leve, demasiado imóvel.
Cada decisão impulsiva, cada ameaça lançada como quem lança um tweet, tem um peso real — em vidas humanas, em famílias destruídas, em comunidades reduzidas a escombros. Falar de guerra com ligeireza é esquecer que cada bomba tem nome, rosto e história.
E quando essa retórica se dirige ao Médio Oriente, estamos a brincar com um verdadeiro barril de pólvora. Uma região onde as tensões não são lineares, onde cada faísca pode desencadear uma reação em cadeia impossível de controlar.
O Líbano é talvez o exemplo mais frágil dessa realidade, uma vez que tem desde sempre, um sistema político baseado num equilíbrio confessional delicado e que por isso qualquer ação mais brusca pode desencadear colapso.
Trata-se dum país exausto e dividido, ainda a braços com as feridas visíveis duma guerra civil sangrenta. Internamente, não pode simplesmente virar-se contra forças como o Hezbollah sem arriscar mergulhar novamente no mesmo abismo duma guerra civil. Não se trata de escolha — trata-se de sobrevivência.
Tratar o Hezbollah como mero grupo terrorista é não saber que, para além uma força militar é também um ator político com representação parlamentar.
Qualquer pressão externa que empurre o país para esse confronto interno é, na prática, uma condenação à desintegração do Estado libanês.
Ora num contexto regional inflamado, um Líbano em guerra civil não ficaria isolado e tornar-se-ia rapidamente um campo de batalha por procuração.
É nesse contexto delicado que se lançam provocações, ameaças, demonstrações de força como se fossem movimentos calculados num jogo estratégico. Mas não há nada de estratégico no caos descontrolado. Não há nada de inteligente em alimentar conflitos num território onde a História já provou, repetidamente, que a violência nunca fica contida.
Mais grave ainda é o impacto invisível — aquele que não aparece nas manchetes.
As crianças que sobrevivem à guerra não saem ilesas. Crescem com memórias que ninguém deveria carregar. Crescem com medo, com raiva, com perda. E esse sentimento não desaparece. Transforma-se em desconfiança, em ressentimento, em ódio.
E é assim que nascem os ciclos de violência que duram gerações.
Quando um líder trata a guerra como espetáculo, está a semear muito mais do que destruição imediata. Está a plantar as raízes de conflitos futuros, mais profundos, mais difíceis de resolver, mais carregados de dor acumulada.
A Europa, a NATO, o Médio Oriente — tudo isto não são peças isoladas. São partes de um sistema frágil, onde a irresponsabilidade de um pode ter consequências globais.
A política internacional não é um palco para afirmações pessoais mas sim um sistema onde cada decisão tem consequências exponenciais. A ideia de que alguém pode agir como “rei do mundo” não é apenas errada. É sobretudo perigosa.
A História, para quem se dê ao trabalho de a ler, mostra-nos que o mundo não responde à força bruta de forma linear. Responde com reação, com escalada, com imprevisibilidade.
E no meio desse jogo não estão peças. Estão pessoas.
Quando tudo termina — quando o ruído político desaparece — o que resta não é poder. É destruição, é silêncio, é memória.
Seja na Ucrânia, no Sudão ou no Médio Oriente, precisamos de líderes que compreendam o peso de cada palavra, que saibam que a força não está na ameaça, mas na contenção, que percebam que governar não é dominar — é proteger. E isto não é utopia ou discurso doce!
Porque no fim, quando as câmaras desligam e os discursos terminam, o que fica não é o espetáculo. Ficam os mortos. Ficam os órfãos. Fica o silêncio.
Um silêncio que não tem nada de grandioso e que grita mais que bombas!
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
