O tempo e a maçã
E então diz o Gonçalo: — “Portugal seria lindo sem os portugueses, ou com os portugueses de 1500.” Não vou dizer quem é o Gonçalo. Mas a frase é boa. E a graça, quase natural: dizer que Portugal é um país maravilhoso, pena nós que cá estamos, e acaso fosse ocupado por, sei lá, eslavos, talvez cumprisse o seu pleno potencial, é daqueles recursos de algibeira que um sujeito deveria ter sempre a jeito e em qualquer circunstância.
A piada funciona porque toca numa ferida. O português tem essa volúpia de ser um Narciso ao contrário. Uma pulsão autofágica de quem já viveu muito e sabe o que elas doem. Vai daí, por instinto, defende-se de tentações de grandeza e seus respectivos tombos.
Isto não significa, porém, que não haja portugueses extraordinários. Portugueses que talvez pertençam, por alguma espécie de linha enviesada, à família espiritual dos de 1500. Há-os. Conheço alguns. O Rui Reininho é um deles. A Lourdes Castro também. Outro é o Miguel Milhão, no seu modo brutal e improvável. O que os une não é a pureza portuguesa, que nunca existiu. É precisamente o contrário: a capacidade de se tornarem portugueses por contacto com outra coisa. O português que se cumpre não é o que se fecha na sua pequena mágoa........
