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Ridley Scott, para o melhor e para o pior

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Ridley Scott chega aos 88 anos com uma característica que, nesta profissão, devia ser estudada por médicos, contabilistas e atuários: não para. Filma. Acaba um, prepara outro e, quando Hollywood ainda tenta perceber se o último correu bem ou mal, já ele está noutro país a mandar erguer uma cidade, destruir um império ou aterrar uma nave. A estreia de Na Companhia das Estrelas é apenas o capítulo mais recente de uma carreira tão desigual quanto extraordinária. E talvez seja precisamente essa desigualdade que melhor o define. Scott é um dos poucos realizadores vivos de quem podemos dizer que mudou a aparência do cinema popular mais do que uma vez. Alien — O 8.º Passageiro (1979) transformou o espaço numa fábrica suja. Blade Runner — Perigo Iminente (1982) inventou um futuro que meio mundo continua a copiar. Thelma & Louise (1991) entregou o volante do road movie americano a duas mulheres que já não estavam dispostas a rebaixarem-se aos homens. Gladiador (2000) ressuscitou um género que Hollywood julgava enterrado. Quatro filmes, quatro mundos. A assinatura de Ridley Scott sempre esteve, antes de tudo, nos olhos.

Um pintor com orçamento para invadir países

Scott começou tarde no cinema. Tinha 39 anos quando realizou Os Duelistas (1977), depois de estudar no Royal College of Art, passar pela BBC e sobretudo pela publicidade, onde aprendeu uma coisa que nunca esqueceu: uma imagem tem de vender qualquer coisa, nem que seja uma atmosfera ou um mundo inteiro. Quando chegou às longas-metragens, já sabia exatamente onde colocar uma câmara, uma janela, uma nuvem de fumo e trezentos figurantes. Daí a célebre ideia do realizador como general. Scott gosta de exércitos, sobretudo atrás da câmara. Talvez por isso seja tão bom a fazer aquilo que muitos cineastas de prestígio desprezam até precisarem de fazê-lo: espetáculo. Sabe onde está cada cavalo, cada flecha e cada pedaço de lama. E sabe que um mundo não se constrói apenas com efeitos digitais. Constrói-se com textura. É isso que une filmes tão diferentes como Alien — O 8.º Passageiro, Blade Runner — Perigo Iminente, Gladiador, Reino dos Céus (2005), Cercados (2001), Perdido em Marte (2015) ou Napoleão (2023). Podemos discutir tudo o resto — e devemos —, mas acreditamos sempre que aquele lugar existe. A nave Nostromo de Alien — O 8.º Passageiro funciona como uma oficina espacial. A Los Angeles de Blade Runner — Perigo Iminente cheira a chuva e óleo. Roma de Gladiador tem poeira, suor e sangue. Marte parece ocupado por engenheiros da NASA com fita adesiva em Perdido em Marte. Scott não é apenas um “criador de mundos”, expressão entretanto gasta de tanto ser aplicada a qualquer realizador com uma boa equipa de efeitos visuais. É um construtor civil do imaginário. O problema começa depois. Porque criar um mundo não significa necessariamente ter uma história à altura........

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