menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

No ADN de um borrego de um só olho, a origem de um fármaco contra o cancro

8 0
previous day

Todos os anos, a 25 de abril, Portugal celebra a liberdade e o mundo celebra a molécula que tudo mudou: o ADN, cuja estrutura foi revelada em 1953 e sequência humana publicada cinquenta anos mais tarde. Mas o verdadeiro poder do ADN não reside em conhecer a sua estrutura ou em ler o seu código. Reside no que acontece quando seguimos essas letras até lugares inesperados, movidos por nada mais do que a curiosidade e uma pergunta que pede resposta.

No final da década de 1950, criadores de ovelhas nos vales montanhosos do Idaho nos Estados Unidos da América notaram que algumas das suas ovelhas estavam a dar à luz borregos com um único olho no centro da face, uma condição conhecida como ciclopia: o mesmo nome dos gigantes de um só olho da mitologia grega, os Ciclopes que Homero descreveu na Odisseia há quase três mil anos. O que durante milénios foi mito, estava a acontecer num pasto em Idaho. Os investigadores do Departamento de Agricultura (USDA) Lynn James e Richard Keeler passaram mais de uma década a investigar a causa, acabando por descobri-la numa planta chamada Veratrum californicum, ou lírio-do-milho, que as ovelhas pastavam durante o período da gestação embrionária. Keeler isolou a molécula responsável e chamou-lhe ciclopamina. Mas desde saber o que era a toxina a compreender os seus efeitos num embrião que gerará um ciclope passariam mais de trinta anos.

A resposta não veio da agricultura nem da medicina, mas de um laboratório de genética que estudava moscas-da-fruta. Em 1980, no European Molecular Biology Laboratory (EMBL), em Heidelberg, na Alemanha, Christiane Nüsslein-Volhard e Eric Wieschaus descobriram um gene ao qual deram o nome de hedgehog (ouriço-cacheiro), porque as suas larvas mutantes pareciam “espinhosas”. Quando foram encontrados equivalentes em vertebrados na década de 1990, um deles foi batizado humoristicamente como Sonic hedgehog (Shh), em honra da personagem de videojogos. Em 1996, investigadores inativaram o gene Shh em ratinhos e produziram ciclopia, a mesma condição que os criadores de Idaho tinham visto nos seus borregos. O gene codifica uma proteína de sinalização que comanda à face embrionária que se divida em duas metades e, sem ela, os olhos e o cérebro não se separam. Dois anos depois, o laboratório de Philip Beachy na Universidade de Stanford, na Califórnia, demonstrou que a ciclopamina causa ciclopia ao bloquear o recetor desta mesma via. A observação de um criador de gado e a descoberta de um geneticista de moscas, separados por décadas e continentes, tinham convergido na mesma molécula.

A história poderia ter terminado como um trabalho satisfatório de investigação biológica, um mistério resolvido, um mecanismo explicado, e nada mais. Mas a compreensão desta via abriu uma porta que ninguém antecipara. A via de sinalização Hedgehog não é apenas essencial durante o desenvolvimento embrionário, é também reativada em certos cancros, onde impulsiona o crescimento celular descontrolado. O carcinoma basocelular, o cancro humano mais comum, e o meduloblastoma, um tumor cerebral infantil devastador, dependem ambos da sinalização Hedgehog aberrante. A mesmíssima molécula que bloqueava a via nos borregos poderia, em princípio, bloqueá-la também em tumores.

Este mesmo princípio deu origem a um fármaco: o Vismodegib, um derivado da ciclopamina, foi aprovado em 2012 para o tratamento do carcinoma basocelular avançado, e uma família crescente de inibidores de Hedgehog está agora em uso clínico ou em ensaios para outros tipos de cancro. Esta terapia existe porque os criadores de gado prestaram atenção aos seus borregos, porque os geneticistas deram um nome engraçado a um gene numa mosca e porque os bioquímicos seguiram um rasto molecular sem saberem onde este os levaria. Nenhum deles se propôs a curar o cancro. Cada um tentava apenas resolver um mistério e compreender como algo funcionava.

Neste Dia Internacional do ADN, vale a pena recordar este facto. A molécula que celebramos não é apenas uma sequência de letras, é um fio que, quando puxado com paciência e mesmo sem um destino predeterminado, pode conduzir-nos de um borrego ciclope numa encosta de Idaho a um medicamento que salva-vidas humanas.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


© Visão