menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Quando o futuro deixa de nos abrigar. Opinião de José Paulo Santos

22 0
21.10.2026

Antes de haver sangue, houve sede. Conta uma antiga narrativa da tradição budista que duas comunidades, os Sakyas (a tribo à qual pertencia o próprio Siddhartha Gautama, o Buda) e os Koliyas, cultivavam as margens do rio Rohini, de cujas águas dependiam as suas colheitas. Quando o caudal se tornou insuficiente, cada uma procurou assegurar a rega dos seus campos e, à medida que a discussão endurecia, a necessidade deu lugar à acusação, o insulto atingiu as famílias e a honra ferida convocou as armas. Buda interveio, levando os envolvidos a comparar o valor da água com o das vidas que estavam prestes a sacrificar. Na ânsia de protegerem aquilo que os sustentava, dispunham-se a destruir quem precisava desse sustento.

O que me impressiona nesta história é a facilidade com que reconhecemos o seu movimento: começamos por defender uma necessidade legítima e, a certa altura, já estamos inteiramente ocupados em vencer alguém. O homem da outra margem deixa de ser um pai preocupado com a colheita, com a fome dos filhos ou com a sobrevivência da família, para se tornar o obstáculo que julgamos ter de remover. Continuamos a conhecer todos os pormenores da nossa aflição, enquanto a vida dele perde espessura, até caber numa palavra hostil. É nessa redução que a violência começa a encontrar espaço.

Penso naquele rio diante das imagens de incêndios, pilhagens e confrontos que nos chegam de ruas europeias. Seria abusivo atribuir a mesma origem a acontecimentos distintos, assim como seria desonesto confundir quem protesta com quem agride ou saqueia. Uma pessoa que exige habitação não se torna responsável por todas as pedras lançadas nas proximidades da sua indignação; do mesmo modo, o proprietário de uma pequena loja não passa a merecer a ruína por vivermos numa sociedade desigual. A democracia exige-nos o discernimento de proteger o direito ao protesto e a integridade das pessoas, sem transformar a compreensão das causas numa absolvição dos atos.

Essa exigência obriga-nos, porém, a olhar para o que acontece antes de a rua se incendiar. Quando alguém trabalha durante anos e continua sem conseguir uma casa, adia um filho por falta de condições ou enfrenta cada despesa inesperada como uma ameaça, a........

© Visão