Fraternidade na decadência. Opinião de José Paulo Santos
Num país que diz precisar desesperadamente de professores, poucos já querem sê-lo − não por falta de vocação, mas porque a escola se tornou, em Espanha como em Portugal, um território de exaustão, descrédito e contradição. Entre a exigência impossível de excelência e a imposição de uma docilidade quase servil, o professor passou de pilar da sociedade a figurante de um sistema que exige tudo e devolve pouco. Afinal, separados por uma fronteira, mas unidos na mesma crise, que destino aguarda aqueles que ainda insistem em ensinar?
“Faltam professores porque poucos profissionais qualificados querem um trabalho cuja estabilidade e a segurança já não compensam a fadiga…” − escreve Sergio del Molino, no El País (3 de junho de 2026). A frase, lida deste lado da fronteira, não soa a estrangeira. Não requer tradução. Ecoa. E, nesse eco, reconhecemo-nos.
Há uma estranha fraternidade na decadência − uma irmandade silenciosa que une professores portugueses e espanhóis numa mesma condição de desgaste. Não se trata apenas de uma crise laboral, mas de algo mais profundo: uma erosão simbólica do lugar do professor na sociedade contemporânea. Como se, dos dois lados da fronteira, o mesmo pano de fundo tivesse sido pintado com tintas idênticas: desvalorização, exaustão e a lenta perda de sentido.
Em Espanha, como denuncia Del Molino, o professor tornou-se uma figura paradoxal: exige-se-lhe excelência, mas também complacência; profundidade, mas sem perturbar; exigência, mas sem conflito. Em Portugal, a gramática é a........
