A arte de ensinar menos: notas agnotológicas sobre um país que desaprende devagar
Comecemos pelo princípio, que neste caso é também o meio e o fim: as Aprendizagens Essenciais do 12.º ano estão a ser revistas e, com isso, os romances de José Saramago deixam de ser leitura obrigatória no currículo de Português. A decisão surge com o brilho institucional da “flexibilidade pedagógica”, esse termo que soa sempre a liberdade, mas que tantas vezes funciona como licença para aliviar o peso do rigor. Assim, de um dia para o outro, obras como Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis deixam de estar no pedestal das leituras imperativas e passam a ocupar o confortável sofá das leituras opcionais.
E enquanto se abre espaço para alternativas como Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho, abre‑se também um espaço ainda maior para nos perguntarmos: o que se ganha quando se perde a obrigatoriedade do único Nobel português da Literatura no Ensino Secundário?
A estranha leveza do currículo contemporâneo
Há quem garanta que estas alterações promovem diversidade e enriquecem o leque de autores estudados. Talvez seja verdade. Mas também é verdade que, num tempo em que se lê pouco, retirar referências literárias centrais tem o sabor ambíguo de uma libertação que saberá, inevitavelmente, a empobrecimento. O Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) assegura que a revisão é uma etapa de “aperfeiçoamento e validação” da matriz curricular, aberta à participação de professores e especialistas até 28 de........
