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A arte de ensinar menos: notas agnotológicas sobre um país que desaprende devagar

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Comecemos pelo princípio, que neste caso é também o meio e o fim: as Aprendizagens Essenciais do 12.º ano estão a ser revistas e, com isso, os romances de José Saramago deixam de ser leitura obrigatória no currículo de Português. A decisão surge com o brilho institucional da “flexibilidade pedagógica”, esse termo que soa sempre a liberdade, mas que tantas vezes funciona como licença para aliviar o peso do rigor. Assim, de um dia para o outro, obras como Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis deixam de estar no pedestal das leituras imperativas e passam a ocupar o confortável sofá das leituras opcionais. 

E enquanto se abre espaço para alternativas como Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho, abre‑se também um espaço ainda maior para nos perguntarmos: o que se ganha quando se perde a obrigatoriedade do único Nobel português da Literatura no Ensino Secundário?

A estranha leveza do currículo contemporâneo

Há quem garanta que estas alterações promovem diversidade e enriquecem o leque de autores estudados. Talvez seja verdade. Mas também é verdade que, num tempo em que se lê pouco, retirar referências literárias centrais tem o sabor ambíguo de uma libertação que saberá, inevitavelmente, a empobrecimento. O Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) assegura que a revisão é uma etapa de “aperfeiçoamento e validação” da matriz curricular, aberta à participação de professores e especialistas até 28 de abril.

Aparentemente, tudo é democrático, dialogado e muito participativo. Mas há decisões que, mesmo participadas, nos deixam a pensar se a liberdade pedagógica não está a ser confundida com uma espécie de alívio literário — como se o problema residisse nos livros difíceis, e não na falta de hábito de os ler.

Agnotologia: a ciência discreta que estuda a ignorância organizada

É aqui que entra a agnotologia, esse conceito tão necessário no século XXI. Criado pelo historiador da ciência Robert Proctor, designa o estudo da produção deliberada da ignorância, seja através de desinformação, omissão ou manipulação cultural.

Originalmente identificada em casos como o da indústria do tabaco — que disseminou a dúvida para travar a compreensão pública dos malefícios do fumo — a agnotologia rapidamente passou a servir para descrever fenómenos bem mais amplos: a desinformação política, a superficialidade mediática e a decadência do pensamento crítico numa sociedade saturada de distrações.

Quando aplicada à escola, a agnotologia não se manifesta através de conspirações secretas ou planos maquiavélicos, mas pela soma silenciosa de pequenas decisões que, ao longo do tempo, retiram profundidade, complexidade e densidade ao processo educativo. Uma disciplina menos exigente aqui, uma obra desafiadora retirada acolá. Pouco a pouco, forma‑se um currículo confortável… mas intelectualmente anémico.

A escola entre o livro e o feed: o triunfo do imediato

O drama não está apenas em deixar de ler Saramago; está em deixar de habituar os alunos a ler textos que exigem paciência, persistência e compreensão profunda. Hoje, a concorrência é feroz: vídeos de 12 segundos, resumos instantâneos, frases motivacionais que parecem explicações, mas apenas substituem pensamento por consumo. A cada scroll, a atenção encolhe mais um milímetro.

Se a leitura obrigatória já era um esforço num mundo de estímulos digitais permanentes, torná‑la opcional pode equivaler a retirá‑la gentilmente da vida de muitos estudantes. E não por falta de mérito literário, mas por excesso de distração. Quando o algoritmo ganha, o ensino perde.

O país que desaprende devagar — e nem dá por isso

É assim que a agnotologia escolar se instala: não com uma porta arrombada, mas com uma janela entreaberta. Primeiro, desvaloriza‑se o livro difícil. Depois, privilegia‑se o conteúdo breve. Mais tarde, aceita‑se que “não vale a pena insistir” em autores exigentes. E, quando damos por isso, a escola tornou‑se um espaço onde se aprende, sim — mas cada vez menos aquilo que dura.

Num país que tantas vezes se orgulha da sua herança literária, abdicar de Saramago não é uma tragédia. Mas é, sem dúvida, um sintoma. E os sintomas merecem diagnóstico.

Afinal, para que servem as leituras obrigatórias?

As leituras obrigatórias servem para obrigar — no melhor sentido da palavra: obrigar a ler o que talvez não se escolheria espontaneamente. Obrigam à descoberta, à estranheza, ao confronto com estilos literários complexos e ideias densas. Servem para expandir o intelecto, contrariar a preguiça e, acima de tudo, para garantir que cada aluno tem acesso a obras que fazem parte da identidade cultural do País.

O fim da obrigatoriedade não é o fim de Saramago nas escolas. Mas torna‑o, inevitavelmente, mais vulnerável à erosão do costume e à ditadura do imediato. Numa sala de aula em que tudo compete pela atenção, aquilo que não é obrigatório facilmente se torna invisível.

Saramago não salva Portugal — mas ajuda a não o perder

A verdade é simples: não se trata de idolatrar José Saramago, mas de reconhecer que retirar pilares literários do currículo, num momento histórico marcado pela superficialidade, é um presente involuntário para a ignorância. E a ignorância, ao contrário do que se pensa, não cresce de um dia para o outro — cresce devagar, discretamente, até se tornar normal.

O Nobel português não precisa de ser canonizado. Mas talvez fosse prudente mantê‑lo como referência firme num país que precisa desesperadamente de textos que obriguem a pensar. A escola não é inimiga da liberdade — mas também não deve ser cúmplice da desinformação. E, se há algo que a agnotologia nos ensina, é que a ignorância nunca é fruto do acaso: é sempre consequência do que deixamos de ensinar.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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