Da interpretação do mundo
Muitas têm sido as discussões sobre matéria de fé, ao longo dos tempos, particularmente entre aqueles que creem em Deus e os não acreditam.
Ia dizer que há séculos as pessoas até se matavam umas às outras por causa disso, mas de repente pus os pés no chão e lembrei-me que ainda hoje muitos ditos religiosos de diferentes fés continuam a matar o seu semelhante em nome do deus da sua fé.
Mas, pelo menos no tocante aos cristãos, tais religiosos praticam assim o que se pode classificar como o crime supremo, uma vez que Jesus Cristo disse exatamente o contrário, ensinando não apenas a amar o próximo mas até mesmo o inimigo: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5:43,44).
O lema religioso “morte aos infiéis” é assim uma construção humana que procede mais da cultura, da História, das relações sociais e da política do que da fé de cada um. Claro que essa aberração – matar outro ser humano em nome da fé – tem abastecido de munições os que não se dispõem a crer. Como é possível acreditar num deus que manda matar quem não o segue?
Sabemos que a fé e a espiritualidade mexem com as emoções mais profundas do ser. Aquilo que nos transcende – e por isso mesmo não dominamos, nem do ponto de vista mental nem operacional – conduz o indivíduo a uma zona de insegurança por excelência. É aí que entra o que se chama o “salto de fé”.
Nem todos encontram coragem para o fazer. Mas, quando arriscamos fazê-lo, passamos a olhar o mundo à nossa volta com outros olhos – os olhos da fé – e a compreender coisas que antes não poderíamos alcançar. É justamente aquilo que S. Paulo refere quando diz: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo” (1 Coríntios 2:14-16).
Anselmo Borges, citando o teólogo Andrés Torres Queiruga, diz que “estamos confrontados com a religião e, na estrutura íntima do processo religioso, não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respetivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo comum.”
De facto, a interpretação do mundo desenvolvida por cada indivíduo é marcada pela cultura, pelo conhecimento adquirido e pela experiência de vida, mas também, como pano de fundo, pela sua própria personalidade. Sendo muitos e distintos os fatores que a determinam, há ainda um outro, que é fundamental, a fé religiosa ou a ausência dela.
Não que o crente ou o ateu vejam o mundo de modo diferente, mas a fé ou a não crença constituem uma chave de leitura para a interpretação do mesmo. Isto é, uma guerra é sempre uma guerra para uns e outros, com o seu cortejo de injustiças, morte e destruição, assim como um ato altruísta é visto da mesma forma por ambos, mas pode ser interpretado de modos diferentes. A interpretação do mundo pode ser realizada através da literatura, que procura trabalhar as complexidades da experiência humana e fornecer aquilo que a história não faz, ou então pela via científica, que se apoia no método crítico, hipóteses e validação objetiva.
Portanto todos vivem neste mesmo mundo, mas leem-no de forma diferente. E é a partir dessa interpretação que se posicionam nele e se podem dispor a fazer a diferença.
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