Quem matou o escritório, a minha geração ou a que veio a seguir?
Houve um tempo em que dizer que alguém ia trabalhar significava, quase sem exceção, sair de casa, entrar no carro ou nos transportes públicos e percorrer o caminho até um determinado edifício. O escritório tinha uma morada, uma secretária, um telefone e, sobretudo, uma presença física que se confundia com o próprio significado de trabalhar. Hoje, essa equivalência parece quase estranha a uma parte crescente dos trabalhadores, e é sobre essa mudança, e sobre o que ela revela acerca da forma como as gerações se relacionam com o trabalho, que quero escrever.
A história do teletrabalho é bem mais antiga do que a experiência coletiva da pandemia costuma sugerir. No final dos anos 90, uma empresa como a Hewlett-Packard já experimentava modelos em que o trabalhador podia desempenhar grande parte das suas funções longe do escritório, com computadores portáteis, correio eletrónico, fax e conferência telefónica a substituir a presença diária numa secretária fixa. A revista Time documentou, em 1998, o caso de uma funcionária da HP que trabalhava três semanas por mês a partir de casa. Alguns anos depois, em 2001, a própria empresa estimava que esse programa tinha evitado mais de um milhão de deslocações e perto de 11 milhões de dólares em custos automóveis. Parecia, na altura, uma excentricidade tecnológica praticada por pioneiros. Visto à distância de um quarto de século, parece antes uma antecipação do mundo em que acabámos por viver.
A minha própria relação com esta ideia nasceu muito antes de a palavra teletrabalho ganhar a popularidade que tem hoje. Em determinadas funções profissionais que desempenhei, tive de assegurar uma presença periódica entre Portugal e a Argélia, numa altura em que não existiam ainda o Teams, o Zoom ou as plataformas colaborativas que hoje fazem parte do quotidiano de quase toda a gente. Usávamos o Skype para as teleconferências e partilhávamos ficheiros através das ferramentas disponíveis, rudimentares para os padrões atuais, mas suficientes para manter ligadas pessoas separadas por milhares de quilómetros. Havia uma particularidade que só compreendi bem mais tarde como significativa, quando estava em Portugal trabalhava para a operação na........
