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Opinião | O CSI da natureza, a nova fronteira na proteção da biodiversidade

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À medida que a tecnologia se torna mais acessível e escalável, caminhamos para um futuro onde cada projeto de infraestrutura, cada hectare agrícola e cada decisão ambiental poderá ser tomada com base em dados precisos obtidos em tempo útil. Não se trata apenas de medir o impacto: trata-se de compreender, minimizar e, sempre que possível, transformar a nossa presença num legado positivo para a biodiversidade.

A biodiversidade está em risco e sendo esta responsável pela nossa alimentação, pelo nosso solo, água, clima e até pelo ar que respiramos, não é difícil perceber a urgência da sua proteção. Quando se trata da forma como monitorizamos e protegemos a natureza, há uma ferramenta que tem vindo a ganhar destaque na comunidade científica, o ADN Ambiental. Todos os seres vivos, ao passarem por um local, deixam “rastos” — escamas, muco, fezes, pólen — que contêm restos de ADN, a que se apelidou de ADN Ambiental. Uma descoberta que permite, nos dias de hoje, a partir de uma amostra de água, solo, vegetação ou mesmo ar, graças à sequenciação genética, identificar todas as espécies que ali estiveram sem nunca as termos visto. É como tirar uma “fotografia genética” de um ecossistema e é o mais perto que temos de um CSI da Natureza.

Porque é que isto importa? Imaginemos o estudo de uma barragem, um ativo essencial para a transição energética, mas que introduz uma barreira num rio. Esta ação tem impacto e esse impacto tem de ser avaliado antes da construção da mesma, durante a operação e no final, se esse ativo for desmantelado.

Utilizando métodos de ecologia tradicional, os biólogos teriam de pescar, observar e devolver os peixes à água, um processo moroso, extremamente invasivo e que requer um conhecimento avançado de taxonomia para identificação da espécie de peixe, que nem sempre está acessível com facilidade. Através do ADN Ambiental, podemos facilmente complementar ou até substituir este estudo. Basta a recolha de alguns litros de água em pontos-chave daquele ecossistema e, após a sequenciação, podemos tipicamente detetar não só os peixes presentes, mas também anfíbios, insetos, mamíferos que lá foram beber, bactérias, etc… É mais rápido, escalável, deteta espécies raras que os humanos não veem e não perturba o habitat.

Neste ‘CSI da Natureza’, tudo acontece em três grandes etapas: a primeira é a captura do ADN invisível, uma tarefa que começa no campo, com um técnico na margem de um rio ou numa floresta, a recolher uma amostra, que pode ser um pouco de solo, uns litros de água, um esfregaço de uma superfície ou mesmo muitos litros de ar. O que ele está a capturar é uma ‘sopa genética’, filtrada ali mesmo, com o ADN a ser preservado para evitar a sua degradação. Esse pequeno filtro guarda a memória biológica de quem esteve naquele local nas últimas horas ou dias.

O segundo passo é o da descodificação, que acontece no laboratório, onde se extrai o ADN desse filtro e se ‘fotocopia’ esses fragmentos milhões de vezes até os tornarmos legíveis com recurso a uma técnica, o famoso PCR. Depois, as mais avançadas máquinas de sequenciação de ADN leem as letras químicas desse ADN que, sozinhas, são apenas ruído. É aí que entra a nossa inteligência de dados: cruzamos esse código com a ‘Biblioteca da Vida’, bases de dados globais que nos dizem exatamente a que espécie pertence cada fragmento.

O último passo é o da decisão. É aqui que a viagem termina e o valor real aparece. Transformamos milhões de sequências genéticas em algo que responde à pergunta que foi feita e informa a tomada de decisões. Não entregamos uma mera lista técnica de nomes em latim, mas sim indicadores claros: ‘o local A é mais biodiverso que o local B’, ou ‘encontrámos uma espécie invasora no início da sua propagação’, ou ‘detetámos a presença desta espécie protegida’.

E em que áreas podemos aplicar esta tecnologia? A agricultura é uma delas. Aqui, estamos a falar em medir a diversidade ou saúde microbiana do solo, monitorizar a presença de insetos auxiliares, monitorizar pragas de forma precoce para podermos atuar antes que seja tarde demais.

No setor da energia, por exemplo, nas eólicas no mar, a monitorização da biodiversidade no meio do oceano é tradicionalmente caríssima e perigosa. Com o ADN Ambiental, mudamos o jogo: basta uma amostra de água para detetar a passagem de baleias, golfinhos ou cardumes em redor das turbinas.

Em terra, podemos olhar para os parques solares, onde têm surgido projetos que juntam solar e agricultura, apelidados de agrivoltaico. Nestes projetos, que têm o objetivo de produzir energia e alimentos no mesmo terreno, os nossos dados focam-se em três pontos essenciais: a saúde do solo, em que medimos se o microbioma evidencia um solo saudável; os polinizadores, em que monitorizamos se o parque solar atrai, por exemplo, abelhas, ou outros polinizadores e insetos auxiliares que beneficiam as culturas vizinhas; e os refúgios de biodiversidade, em que provamos que estes parques não são ‘desertos de painéis’, mas sim ecossistemas protegidos onde a biodiversidade pode florescer.

Nos setores como mineração, construção, transportes, setores de alto impacto, onde existe por parte dos governos e da sociedade uma “licença social para operar”, o ADN Ambiental já é usado para monitorizar, por exemplo, espécies protegidas, evitando paragens inesperadas por falta de informação ambiental.

A tecnologia existe. O conhecimento está disponível. Agora, cabe-nos a todos, empresas, governos e sociedade civil, integrar ferramentas como o ADN Ambiental nas nossas práticas e decisões. Porque proteger a biodiversidade não é um luxo nem uma escolha, mas a única forma de garantirmos que as gerações futuras terão acesso aos mesmos recursos naturais de que dependemos hoje.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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