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O primo do século passado

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12.03.2026

Como alguém que viveu pouco mais de dois anos em Madrid, há algum tempo, não me lembro desde então de assistir a nem um bocadinho do fervor espanhol em relação à política interna portuguesa como aquele que se vê no nosso país relativo a Espanha. Não é que não tenhamos tido casos controversos, primeiros-ministros menos recomendáveis como aquele que se encontra a ser julgado pela justiça portuguesa, e outros numa esfera bem diferente para bem do País. Da esquerda à direita, com amplitude desde cá e a atravessar diversas geografias, nunca faltaram atitudes e acontecimentos que seriam facilmente condenáveis. Durante todas essas épocas, é difícil para não dizer impossível encontrar um dirigente político e eurodeputado espanhol a condenar o que seja e misturando essa avaliação com a posição ou política externa portuguesa.

Não me interpretem mal neste tempo em que o debate é excessivamente dominado pelo preto ou branco e sem nuances: existe muita coisa censurável politicamente em Pedro Sánchez e na sua coligação colada a cuspo com a extrema-esquerda. Num certo grau da amnistia concedida a independentistas catalães e certamente nos casos sérios de corrupção que pendem sobre o seu partido. É compreensível que tudo isso seja debatido como foi pela opinião pública portuguesa e motivo de avaliações. O que nunca foi é a dimensão que esses fatores ganharam a outro nível e que servem hoje para confundir na avaliação da posição externa de Espanha.

Desde o atual ministro dos Negócios Estrangeiros em Madrid em 2023 vociferando contra o primeiro-ministro espanhol, a eurodeputados no Parlamento Europeu de quem esperaria bastante mais, como Sebastião Bugalho, até João Cotrim Figueiredo, cuja densidade política sempre foi pouca ou nenhuma. Destes, nunca se ouviu uma palavra nessa mesma assembleia em Bruxelas ou em Madrid (no caso de Paulo Rangel) contra quem prejudica Portugal e a União Europeia como a Administração Trump, mas ouviu-se os maiores ataques a um primeiro-ministro espanhol que nunca foi acusado de nada pela justiça espanhola e que é todo o contrário em relação a Portugal. Mais uma vez, nunca tal ocorreu ao longo das últimas décadas a nenhum líder político ou eurodeputado da direita e da esquerda espanholas em relação à política interna portuguesa.

É também neste ambiente das prioridades trocadas de ontem que uma opinião pública lusa está maioritariamente contaminada por um anti-sanchismo primário, toldada que está pelo que não deve, e que se assiste ao ignorar de tudo o que este governo espanhol leu melhor do que qualquer outro Estado-membro democrático e liberal da União Europeia na geopolítica. Essencialmente, desde que o inenarrável Presidente americano e a sua Administração foram eleitos. Seguindo sempre uma linha coerente e que lhe tem trazido bem mais benefícios do que prejuízos.

Torna-se exasperante verificar que existem em Portugal avaliações em relação ao ataque de Israel e dos EUA ao Irão com base na dicotomia esquerda-direita ou até através de quem tanto enganou e mal calculou, promovendo há mais de 20 anos a invasão ilegal do Iraque, com danos que perduram até ao dia de hoje para a Europa. Que fique claro: ouvir o atual presidente da Fundação Luso-Americana (FLAD), Durão Barroso, a condenar a posição de Espanha em relação ao ataque no Irão não se limita a mais um erro de cálculo do próprio. É uma piada de mau gosto vinda de quem vem. Adiante.

Para quem duvidava, já se percebeu que esta ofensiva não trará um país melhor, certa que é a repressão em crescendo no Irão. O Médio Oriente será uma região cada vez mais instável e perigosa para regozijo de Netanyahu e a Europa pode contar com uma crise económica, de refugiados, e eventualmente com consequências bastante gravosas dada a probabilidade de se reacenderem células terroristas que levam décadas de desmantelamento eficaz.

À parte da legalidade, do direito internacional que é salvaguarda para as pequenas e médias nações manterem o que resta da sua soberania no tempo do trumpismo, do mínimo dos ensinamentos de um passado recente, Espanha disse que não desde o primeiro momento a este reflexo na Europa e a uma guerra sem objetivos concretos. Não entender a partir daqui, do perigoso e anunciado apoio chinês à defesa do Irão, que a posição espanhola para a Europa é também a mais pragmática assemelha-se a ter aplaudido muito o discurso de Mark Carney em Davos sem querer ter percebido ou retido verdadeiramente nada.

Enquanto escapou grande parte do essencial à opinião pública portuguesa e a nossa diplomacia teima em não saber posicionar-se num novo mundo, em que o trumpismo pode ou não ser passageiro nos EUA, Pedro Sánchez fechava a ida do Presidente brasileiro em abril a Barcelona para participar numa cimeira global. Poucas horas depois de anunciar a posição do seu governo na guerra do Irão.

Numa altura em que grande parte do centro-direita europeu reconhece essa relevância e a posição espanhola, a nossa dedica-se à política interna daquele país.

Não somos o primo da terrinha. Somos o primo do século passado. 

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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