Os homens que não admiram mulheres
Tenho visto isto como tema recorrente aí pela net. Boa parte dos homens, quando perguntados sobre que mulheres admiram, não conseguem nomear nenhuma para além das que fazem parte do círculo familiar. Creio até haver machos tão machos que nem a própria mãe admiram, e que acham que tudo o que a senhora faz não é mais do que sua obrigação (incluindo fazer-lhes as marmitas todos os dias, apesar de já terem 40 biscas). Quer dizer, claro que estes machos, incríveis portentos de macheza que são, conseguem nomear uma data de mulheres porque “são mesmo boas” e conseguem admirar os seus corpos, não conseguem é admirá-las para lá do binómio supra intelectual mamas – cu.
E isto torna-se particularmente caricato porque, normalmente, são também o tipo de homem mais homofóbico (de forma vocal ou internalizada), mas depois só conseguem mesmo apreciar outros homens pelos seu intelecto, pelos seus feitos, o seu sucesso (que medem à base de dinheiro, fama, carros e “gajas”), e claro que pelo seu corpo. Pena que, também normalmente, desconheçam o significado de paradoxo, para poderem achar tanta graça a isto como nós achamos.
Tudo isto é para lá de bizarro. Como pessoa que admira tanta gente de todos os géneros, e que é grato por assim ser, isto ultrapassa-me. É lógico que admiro um batalhão de mulheres de todas as áreas. Assim de repente, se pensar só 10 segundos em portuguesas conhecidas e vivas: Tânia Graça, Ana Markl, Joana Brito Silva, Bumba, Inês AP, Isabel Viana, Beatriz Gosta, Maria Rueff, Inês Lopes Gonçalves, Filomena Cautela, Mafalda e Joana Castro, Rita Blanco, Joana Seixas, Laura Carreira, Joana Santos, Dalila Carmo, Soraia Chaves, Margarida Vila Nova, Maria do Céu Guerra, Jessica Silva, Patrícia Mamona, Gisela João, Garota Não, Capicua, Maria Escaja, Isabel Moreira, irmãs Mortágua, Sofia Aparício, Maria João Pires, Inês Marinho, e mais uma montanha de atrizes, comediantes, músicas, escritoras, políticas e tudo o mais. E tanto como a elas todas, junto uma enorme admiração por tantas médicas, cientistas, jornalistas, professoras e cozinheiras, tal como admiro todos os dias, e com o maior orgulho, as minhas amigas, as minhas tias, primas, irmã, mãe e avó.
Mas sabem quem é que também admiro profundamente? Todas as mulheres que sustentam a sociedade, as que levam o País às costas. As invisíveis que acordam todos os dias na periferia das cidades, ainda nem o sol nasceu, para limpar as cidades, para cuidar de velhos e bebés, que trabalham horas e horas, mal pagas, exploradas, e que a isso ainda somam todo o trabalho doméstico pouco ou nada repartido. A minha maior admiração tem mesmo de ir para todas as trabalhadoras absolutamente essenciais, que são também responsáveis pelo sucesso das outras conhecidas que enumerei ali atrás – na verdade, por todos nós – e cuja ausência nos faria desabar.
Honestamente, o que é de nós, se não conseguirmos admirar realmente os outros, sem preconceito de género?
Bem sabemos que esta admiração de tantos homens apenas se manifestar sobre outros homens, radica no machismo. É um bro code muitíssimo evoluído intelectualmente que consiste em só admirar homens porque vêem sempre as mulheres como inferiores.
Mas no fundo, fundo, o que estes homens têm é medo da liberdade das mulheres. E não há nada menos macho do que isso.
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