Beija-se pouco em Portugal
Talvez esteja com um ligeiro viés (mesmo muito ligeiro, quase imperceptível até), por ter acabado de aterrar aqui vindo do Carnaval do Rio de Janeiro. Mas dá-me mesmo a ideia de que se beija pouco em Portugal. Não é só no Carnaval, é sempre, em qualquer lado ou ocasião. Até nos casamentos eu acho que se beija pouco, que às vezes os noivos dão só mesmo um beijinho tão frouxo que até mete dó.
Primeiro, contextualizo. O que provavelmente muitos de vocês já ouviram falar sobre muito se beijar no Carnaval do Rio (creio que também noutros carnavais do Brasil, mas ainda não fui) não é mito de forma alguma. É que é uma constante, por todo o lado, em que tantas vezes basta um olhar ligeiramente mais prolongado, e antes de sequer sabermos o nome da outra pessoa (completamente sobrevalorizado), já nos estamos a mamar na boca um do outro de tal forma que mais parece uma endoscopia dupla. Não raras vezes, junta-se mais gente ao grupo e torna-se uma endoscopia multilateral. É maravilhoso.
Há no Carnaval do Rio esta libertação dos corpos das grilhetas do conservadorismo, que faz o pessoal andar aos linguadões quase ao mínimo sinal de atração e afeto. Ali pensamos, para quê esperar por uma outra altura que pode nem chegar? Que altura poderá ser melhor do que aquele instante em que percebemos que de repente há ali toda uma mútua atração de importância quase existencial, mesmo que por breves minutos? E creio que no resto do ano, embora não seja de todo assim, há de qualquer forma no Brasil muito mais facilidade em as pessoas deambularem a língua uma na outra do que em Portugal. Não digo em qualquer contexto ao deus-dará, claro. O pessoal não está encostado à máquina de fotocópias ali da contabilidade e desata ao melo porque o colega veio especialmente gato nesse dia.
Mas em contextos de festas, noite, locais de mamanço (ou namoro, se quiserem algo menos prosaico) como, por exemplo, um jardim, há um recato em Portugal que é de menos. Para muita gente, é quase chocante ver duas (já nem vou às 3 ou 4 – 5 já é anatomicamente desafiante, mas podem tentar) a verificar uma à outra com a língua, claro está, se as respetivas amígdalas estão em dia. E a grande questão que se põe é: se é tão bom beijar (diria, top 3 das melhores coisas que o ser humano pode fazer na vida com outro), porquê tanto reprimir?
Beijar com língua faz-nos libertar dopamina (prazer), ocitocina (vínculo e amor) e serotonina (bom humor). É uma sensação encantadora e que podia ser algo mais liberado, no sentido carnavalesco da questão. Ou seja, com mais desprendimento, com menos pudor, com menos medo que de tenha automaticamente de haver sexo a seguir, ou na pior das hipóteses, casamento. Fazê-lo pelo prazer momentâneo da conexão física e química com outro ser humano.
Acho que todos os casais, dos momentâneos aos estabelecidos, deviam beijar mais e com mais vontade. E o beijo público devia ser celebrado e não escondido, ovacionado e não julgado. Mais “ai que bom, estão tão felizes a beijar-se”, e menos “ai que horror, que pouca vergonha, deus me livre e guarde”.
E gostava ainda mais que houvesse cá festas – abertas, não privadas – com um espírito mais Carnaval do Rio. E se nos Santos Populares, houvesse bailaricos onde todo este beijar na boca era normal? Que sonho. Deixo aqui a ideia.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
