De que calada maneira? Lembrança de um pai em seus últimos dias
De que calada maneira? Lembrança de um pai em seus últimos dias
Conto isto hoje, aqui, só porque não sei quando mais e onde mais poderia contar. Cada um convive com suas lembranças por um tempo incerto até que um dia elas se apagam, por esquecimento, por distração, por morte. Um escritor tem a opção de registrá-las, mas sabe que ainda assim acabará por perdê-las, que a lembrança traduzida em palavra já não será a lembrança, será não mais que lembrança da palavra. A tarde em que escrevo há de tomar o lugar da tarde que recordo, do acontecimento original que já não existirá — que já não existe de qualquer forma. Não sei se devo, mas troco neste ato a lembrança pelo seu sucedâneo textual, numa crônica ao menos atenta a esse extravio só um pouco lamentável.
E, no entanto, quase não há acontecimento, não tenho quase nada para recordar. Fazia um ou dois meses que meu pai estava de novo internado no hospital, seu corpo a desertá-lo de diversas formas, notávamos que aqueles deviam ser os seus últimos dias. Era cansativa a rotina de revezamento no quarto branco demais, era penoso acompanhar de perto suas dores e seus desconfortos, podíamos até sentir certa ânsia do fim enquanto não aprendíamos quanto tudo aquilo faria falta. Alguém então pensou que seria bom espairecer um pouco, fazer outro tipo de tarde em família além do hospital, além daquela brancura aparentemente tão aborrecida, monótona, vazia.
O lugar onde fomos parar........
