Redes sociais bombardeiam meninas com post sobre suicídio, de meninos, com bet
Redes sociais bombardeiam meninas com post sobre suicídio e meninos com bet
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A exposição a conteúdos controversos nas redes sociais atinge meninos e meninas de forma diferente no Brasil, mostra um estudo ao qual a coluna teve acesso. Enquanto eles são bombardeados em maior grau com posts sobre conteúdo adulto, de casas de apostas e redes de relacionamento, as timelines delas são inundadas com drogas, automutilação e suicídio.
A gente percebe que o gênero também é importante para entender como crianças navegam pela internet, o que que elas fazem e como são impactadasPriscilla Branco, diretora de opinião pública da Ipsos no Brasil
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A pesquisa é divulgada quando está prestes a entrar em vigor no Brasil o ECA Digital, um conjunto de obrigações impostas a serviços e produtos digitais, inclusive redes sociais, para tornar a internet mais segura e saudável para crianças e adolescentes. Uma das exigências será a verificação da idade dos usuários para destinar a crianças conteúdos apropriados.
A internet vai mudar a partir de 17 de março no Brasil. Ela já mudou a partir de 10 de dezembro na Austrália. Para garantir que o usuário tem a idade adequada para aquele conteúdo, você precisa verificar todos os usuáriosLuis Felipe Monteiro, vice-presidente da Unico
A Austrália proibiu menores de 16 anos em redes sociais, algo discutido em algum grau na França, Espanha, Reino Unido e até em partes dos Estados Unidos. No Brasil, o ECA Digital não estabelece a proibição, mas possui dispositivos que combinados podem acabar vetando o acesso de crianças e adolescentes até uma certa idade a plataformas sociais e chatbots de inteligência artificial.
Divulgada parcialmente no fim de janeiro, a pesquisa "Mundo Online" foi feita por Ipsos Brasil em parceria com a Unico, empresa especializada em verificação de identidade digital. O estudo já havia mostrado que 30% dos adolescentes mentiram a idade para entrar em rede social e que 57% deles viram algum conteúdo controverso. Agora:
A coluna teve acesso a dados que mostram quão problemáticos são esses materiais ou, como definem os pesquisadores, "o tamanho do abismo";
Os conteúdos eram sobre cenas de bullying ou discriminação (para 44% deles), dicas para ficar magro (30%), pessoas usando drogas ou falando sobre usar (21%), formas de automutilação (11%) e jeitos de tirar a própria vida (6%);
Detalhe importante: as meninas sofrem mais com a exposição a esses conteúdos, ao ponto de 72% delas serem impactadas quando chegam à faixa entre 16 e 17 anos; além disso, posts sobre magreza e a respeito de maneiras de se matar as atingem em maior grau quando atingem essa idade;
Não quer dizer que os meninos ficaram livres da exposição a conteúdos certamente impróprios para suas idades.
A pesquisa ouviu crianças e adolescentes com idades de 10 a 17 anos, além dos pais e mães deles. Foram realizadas 1,2 mil entrevistas de um grupo e de outro.
Pouco mais de um terço (35%) dos jovens ouvidos viu violência extrema, 13% acessaram livremente conteúdo pornográfico, 11% conseguiram jogar em casas de apostas, 8% entraram em sites de relacionamento e 5% compraram na internet bebidas alcoólicas ou cigarros. Todas essas atividades são vetadas a menores de 18 anos;
Aqui, há outro recorte de gênero, já que meninos são mais expostos a conteúdo adulto, bets e apps de namoro.
O impacto desigual de conteúdos controversos entre os gêneros pode ocorrer devido aos interesses distintos entre meninos e meninas, explica Priscilla Branco, da Ipsos. Para explicar, ela cita o psicólogo Jonathan Haidt, autor do best seller "A geração ansiosa" e uma das referências da pesquisa. Segundo ele, meninas buscam se conectar e ampliar sua rede de amigas na internet, enquanto meninos estão interessados em jogos e entretenimento
O algoritmo, por sua vez, se encarrega de bombardear as crianças e adolescentes com conteúdos controversos dentro da esfera de interesse deles. Outro dado da pesquisa explicita isso: cenas de violência extrema aparecem para um terço dos jovens (35%). Parte dos jovens entrou em contato com isso porque gostam de filmes e séries com esse teor. Para metade, esse tipo de coisa simplesmente apareceu na timeline.
Posts violentos, aliás, impactam em igual proporção meninos e meninas, de todas as idades. Essa é só uma das conclusões do estudo que vale para ambos os gêneros. A outra é que o contato com situações inapropriadas e até ilícitas via redes sociais vai se tornando mais frequente conforme a idade aumenta.
Uma terceira é que há uma disseminação dos perfis alternativos. Não precisava fazer pesquisa para isso, mas o estudo detectou que a presença de crianças e adolescentes com idades de 10 a 17 anos nessas plataformas é indiscriminada. Chega a quase 100% deles. Também levantou que eles têm em média contas em cinco desses sites. Mas a pesquisa descobriu ainda que 25% possuem perfis paralelos em uma mesma rede social, seja para fugir dos olhos dos pais, seja para incorporar personagens.
Com mais de um perfil, duplica a possibilidade de receber contato [de pessoas estranhas], de ver conteúdos controversos. Existe uma parcela significativa de pais que estão alienados em relação ao que os filhos fazem na internetPriscilla Branco
Se até agora discutimos os fatores que ampliam a exposição de menores de idade a conteúdos impróprios, a outra conclusão é para quem está se perguntando se dá para fazer algo que diminua esse risco. Sim, dá. Supervisão parental faz diferença. Mas isso não é a regra, já que pouco mais da metade dos pais (55%) disse saber muito sobre o que os filhos fazem na internet. O resto sabe mais ou menos, não sabe nada ou não teve elementos para responder.
Já os filhos dizem que os pais só não descobrem que eles mentem a idade para entrar em redes sociais porque não prestam atenção, não entendem de internet e redes sociais ou porque o uso é encoberto (celular escondido ou histórico apagado).
"Quanto mais os pais têm consciência do nível de risco do ambiente em que o filho está e quanto mais próximos os pais estão dessas plataformas acessadas pelos filhos, menor é a exposição desses filhos a conteúdos controversos. O inverso também é verdadeiro", resume Luis Felipe Monteiro, da Unico.
Letramento digital para entender o que se passa nas redes sociais e vontade de acompanhar os filhos em ambientes digitais são cruciais. Mas há algo além disso. Para Priscilla, a falta de importância que os adultos dão ao que crianças e adolescentes fazem nas redes sociais está relacionada a uma "diferença geracional".
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