Deboche progressista e idolatria conservadora tornam a família uma arma cultural
Economista pela UFPE e especialista em gestão pública no Insper. Estudou economia comportamental na Warwick University (Reino Unido) e é associada do Livres
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Deboche progressista e idolatria conservadora tornam a família uma arma cultural
Cuidar dessa instituição significa proteger quem vive dentro dela
Vínculo familiar funciona como seguro informal e rede de apoio econômico
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O desfile da Acadêmicos de Niterói pretendia ironizar o neoconservadorismo bolsonarista por meio da sátira da "família tradicional", num contexto de homenagem a Lula. A crítica foi lida como deboche do esforço de construir família num país instável, não como ataque à instrumentalização conservadora da instituição. Pessoas que buscam estruturar vínculos de pertencimento, inclusive aquelas que cresceram em contextos marcados por conflito, sentiram-se alvos. Como resultado, esse sentimento vem sendo capturado pela oposição para fortalecer o projeto político que o desfile pretendia criticar.
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Os vínculos familiares operam como seguro informal, rede de apoio econômico e horizonte de mobilidade. Para muitos, a família é a única promessa de estabilidade disponível num cenário de insegurança material e de fragilidade institucional. Raj Chetty documentou, em 2014, em milhares de condados americanos, que crianças que crescem em ambientes familiares estáveis têm trajetórias econômicas superiores décadas depois. No meu artigo em favor da licença-paternidade, citei estudos que apontam uma associação entre a participação paterna e melhores indicadores de desenvolvimento infantil.
Quando se controla pela renda familiar e pela escolaridade dos pais, o efeito da configuração biparental diminui. Haushofer e Shapiro mediram, em 2016, transferências de dinheiro a famílias pobres no Quênia: aumentos de renda melhoraram a saúde mental infantil, independentemente do número de adultos na casa. O mecanismo parece ser a estabilidade material, combinada com o investimento parental, e não a forma jurídica do arranjo.
Ao transformar um ideal em ídolo, a defesa conservadora transforma a família em símbolo de pertencimento a um grupo social e político. Assim, o número de filhos vira um marcador de capacidade econômica, e a esposa em casa torna-se um símbolo de que o homem cumpre seu papel de provedor. Essa transformação substitui a responsabilidade pela aparência e confunde meios com fins.
Se a forma fosse suficiente, a realidade seria outra: em 2021, segundo o Disque 100, 81% das denúncias de agressão contra menores ocorreram em casa, cometidas por mãe, pai, padrasto ou madrasta. Pesquisa do Ministério da Saúde sobre abuso sexual revelou que o crime ocorreu dentro do próprio domicílio em 72,4% dos casos envolvendo vítimas do sexo feminino.
Nem a tradição bíblica que os conservadores invocam romantiza a estrutura familiar. As histórias dos patriarcas e de personagens admirados, como o rei Davi, são marcadas por relações disfuncionais, fraturadas ou violentas. A configuração tradicional existia nestes exemplos da narrativa judaico-cristã, mas a harmonia familiar não era comum. A tradição reconhece que a estrutura e as aparências não substituem o caráter.
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A confusão entre aparência e substância também afeta homens quando o modelo familiar exige provisão econômica e silêncio emocional como prova de valor. Em 2021, foram registrados 15.507 suicídios, segundo o Datasus, dos quais 77,8% foram cometidos por homens. A taxa de mortalidade masculina por suicídio atingiu 10,7 por 100 mil habitantes. Defender a família como símbolo de estabilidade, enquanto se negligencia a saúde mental de homens e meninos nela, produz o oposto do pretendido.
A crítica progressista acerta ao apontar que a defesa da "família tradicional" muitas vezes mascara controle, abusos físicos e psicológicos. Erra ao tratar a família apenas como instrumento de moralismo conservador, subestimando sua função de organizar recursos e vínculos. O conservadorismo erra ao tratar a forma como autojustificável, ignorando que o mecanismo protetor depende de investimentos relacionais e de cuidados que o ideal, sozinho, não garante.
Entre caricatura e idolatria, a família importa, não da forma que progressistas querem minimizar nem da forma que conservadores querem engessar. A questão não é qual lado vence a disputa cultural, mas se estamos dispostos a encarar que defender a família exige cuidar de quem vive dentro dela, não apenas preservar o símbolo.
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