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Amazônia tem ciência e biodiversidade, mas falta inovação

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10.03.2026

Amazônia tem ciência e biodiversidade, mas falta inovação

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A exuberância da biodiversidade amazônica é reconhecida mundialmente. Cientistas destacam 50 mil espécies de plantas superiores, sendo 16 mil árvores na região. O Banco Mundial calcula que a floresta amazônica em pé teria um valor de US$ 317 bilhões por ano, o que equivaleria a todos os produtos exportados pelo Pará durante 13,7 anos.

A riqueza da biodiversidade amazônica, vista pela ótica exportadora da região, é pequena, diminuta mesmo, senão vejamos. O Pará, que exportou US$ 23 bilhões em 2024, usou a floresta para produzir 6,7 milhões de m³ de madeira, obtendo um faturamento de cerca de US$ 500 milhões, enquanto o cultivo do açaí chegou a US$ 1 bilhão no mesmo ano.

Um cálculo aproximado mostra que milhões de árvores da floresta foram cortadas para produzir uma matéria-prima de valor muito baixo. De fato, a economia da Amazônia é fortemente baseada em commodities: minérios (80,4%), soja, milho e pecuária, embora tenha todas as condições de ser um player importante na produção de medicamentos, cosméticos e alimentos de base florestal.

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O mercado de alimentos no Brasil é de R$ 1,27 trilhão, mas os brasileiros fora da Amazônia conhecem basicamente açaí, cacau, guaraná, castanha-do-pará e, eventualmente, cupuaçu. Naturalmente, porque ? embora haja uma ou outra exceção ? são esses alimentos que produzimos aqui na Amazônia e que conseguem ultrapassar as barreiras sanitárias.

A maior parte das 250 frutas comestíveis registradas em livros e documentos sobre a Amazônia não é produzida industrialmente. O Ministério do Meio Ambiente registra cerca de 50 dessas frutas que, de algum modo, poderiam ser comercializadas como alimentos nutricionais, condimentares, corantes ou fibras.

Essas são apenas algumas das frutas da floresta, como biribá, cupuaçu, taperebá, cacaui, pajurá, pupunha, tucumã, entre muitas outras. O sorvete de muruci, por exemplo, tem aroma frutal intenso e gosto que lembra o de certos queijos franceses. O ajiru, com sabor levemente salgado, é uma fruta incomum que poderia gerar um produto inovador.

O que falta, então, para a Amazônia mostrar ao mundo essas maravilhas?

De um lado, o entendimento tecnológico do sistema produtivo, do manejo e da adaptação climática dessas frutas. De outro, volume de produção, controle de qualidade, certificações, distribuição, logística e marketing.

Esse é o caso de frutas que se deterioram com muita facilidade, como o limão amazônico, aqui chamado de "galego", que nada tem a ver com o galego ou o siciliano que a região Sul do país conhece. O limão amazônico é do tamanho de uma laranja ou maior, como um grapefruit, tem acidez baixa, é muito aromático e floral, e até suas folhas poderiam ser usadas como condimento, já que lembram o kaffir.

Processos de industrialização aprendidos nas engenharias de alimentos poderiam resolver facilmente esses problemas. No entanto, na Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, terra do açaí, pesquisadores se debruçam também sobre o cultivo e a comercialização de frutas da Tailândia, Malásia e Indonésia, como rambutan, noni e mangustão.

Um mundo de sabores tropicais das deliciosas frutas da Amazônia espera que escolas e universidades da região se dediquem aos produtos da nossa floresta, que, com tecnologia, podem chegar aos exigentes mercados brasileiro e europeu.

Nesse caso, o Brasil poderia produzir até azeites gourmet da Amazônia, com grande possibilidade de aceitação por chefs da França, desde que houvesse pesquisa e desenvolvimento dos óleos vegetais da castanha-do-pará, do tucumã ou do patauá.

Outro mercado brasileiro pujante é o de cosméticos, que em 2024 chegou a US$ 37,4 bilhões, o terceiro maior do mundo, logo após China e Estados Unidos. Em sua maioria nacionais, são 3.630 empresas, que empregam 154 mil trabalhadores e geram cerca de R$ 590 milhões em impostos.

Empresas de base sustentável, como a Natura, usam os abundantes óleos e gorduras vegetais, ácidos graxos e corantes, insumos da floresta amazônica. Uma centena de plantas amazônicas produz óleos vegetais comestíveis, como os da castanha-do-pará, do buriti e do tucumã, além de óleos medicinais, como o da andiroba.

Entre as 89 empresas de cosméticos instaladas na Amazônia, são poucas as que produzem dermocosméticos ? produtos que se aproximam de medicamentos de uso tópico e contêm alta concentração de substâncias bioativas, como antioxidantes fenólicos, com atividade farmacológica comprovada em ensaios de segurança e eficácia.

Esses compostos atuam no controle do envelhecimento, na acne, na hidratação e na firmeza da pele, diferenciando-se de um simples cosmético.

Em suma, a rica biodiversidade amazônica é abundante em papers, conhecimento científico e saberes de povos indígenas, quilombolas e comunidades locais, mas ainda é pobre em tecnologia.

A ciência é boa, mas muitas vezes não resulta em patentes e produtos. O conhecimento gerado nas ICTs e nas universidades permanece restrito a pesquisadores e cientistas. A divulgação dos benefícios que poderiam chegar às pessoas comuns e aos empresários não ocorre plenamente, e o conhecimento não se transforma em negócios.

Mudar esse paradigma não parece simples para legisladores e para os detentores dos recursos destinados às instituições. De fato, falta muitas vezes pragmatismo por parte de quem financia a pesquisa, com programas claramente rotulados para "uso no desenvolvimento de produtos da biodiversidade".

O que se pode fazer para manter vivas as empresas da sociobiodiversidade na Amazônia?

Recursos, com menos burocracia, são certamente o primeiro passo. Inovar é caro. Para a pesquisa e desenvolvimento de um dermocosmético com segurança e eficácia, o custo não é menor que R$ 300 mil. Mas recursos, sozinhos, não bastam.

Unidades como Embrapii e Sebrae são bem-vindas, com recursos e mentoria ajudando empresas a se manterem vivas e competitivas no mercado -- e exigem pouca burocracia.

Parte dos recursos das ICTs e universidades deveria ser destinada obrigatoriamente à inovação tecnológica, com auditorias que garantam entregas concretas: tecnologias, know-how, protótipos e produtos.

Recursos para associações e comunidades de trabalhadores amazônicos são importantes, mas, para a pesquisa, desenvolvimento e inovação, é necessária cooperação com ICTs e universidades.

Pesquisadores que geram tecnologia nas universidades e ICTs devem ter permissão para abrir empresas, pois são centrais no desenvolvimento tecnológico e na transformação da pesquisa em produtos.

*Lauro E. S. Barata é doutor em Química pela Universidade Estadual de Campinas e pós-doutor pelo CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique), Institut de Chimie des Substances Naturelles. É professor visitante da University of London, School of Pharmacy.

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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